segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Poeta é um Fingidor

À laia de conclusão do longo post de ontem, hoje, numa manhã repleta de aulas, passou-me várias vezes pela cabeça este verso de Pessoa. Alguém famoso questionou um dia se a poesia seria possível depois de Hiroshima. Nunca percebi esta dúvida. O Poeta é um Fingidor e, para além disso, a poesia pode ser das coisas mais dilacerantes que existem. A poder expressar-se o horror e a violência por palavras, o meio privilegiado é, com certeza, o poema.
Eu própria, que me digo tão genuína e transparente, ando, vejo isso agora, há que tempos a fingir. Finjo que não amo, finjo que não sinto ciúmes, finjo que sou correspondida, finjo que não espero por milagres, finjo que está tudo bem, finjo que sou uma pessoa como as outras, finjo (tão bem) existir, finjo sorrisos, finjo tanto, finjo sempre. Hoje, a lutar interiormente contra as minhas mentiras e os meus fingimentos, a tentar ver as coisas a preto e branco, a tentar sobreviver num mundo com a tal realidade para que me abriram ontem tão bem os olhos, consegui gracejar, manter conversas coerentes, ser agradável, dar aulas, rir-me. Consegui, inclusivamente, convencer pessoas que me conhecem de que hoje é mais um dia igual aos outros, que eu sou a mesma, que nada mudou. Sim, a poesia é possível sempre que haja alguém capaz de fingir que os seus holocaustos não são reais.

10 comentários:

Rosário disse...

Eu não imagino (não suportaria!) a vida sem poesia!Como diz Victor Hugo "A poesia é o que há de íntimo em tudo". Como suportar os dias sem as palavras de Pessoa, Florbela Espanca, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Pablu Neruda, Drummond de Andrade e tantos outros?...Sem eles, a vida seria um tormento (maior!)

bjs

cuidandodemim disse...

Não podemos deixar de amar de um momento para o outro, mas podemos abrir os olhos e acabar com as ilusões!...
Bjns

Anónimo disse...

E enquanto esperaste dia após dia por um convita para almoçar ou um simples café; enquanto criaste oportunidades para que tropeçasse em ti a cada passo; enquanto escreveste cartas e poemas e abriste o teu mail 250 vezes/dia à procura de uma palavra; e tremeste que nem varas verdes na sua presença sem que ele pestanejasse; enquanto isso passou um ano e deitaste ao lixo coisas bem mais importantes que um amor desde sempre unilateral. WISE UP. GIVE UP.

Jade disse...

Concordo com todos. Obrigada.

Anónimo disse...

Sorry, my precious, but I disagree. Not with the facts, which seem clear and true. I disagree with that reality bringing you any good. I was much more at ease when you were illuded. I fear for you now because I know you manage very badly with hopelessness. I fear for you and I hope you surprise me. Please hang on to something. You've lost your thesis, you've lost your dreams of happiness, plunge in your work then. Don't give up on yourself. I'm watching you. Doing double shifts, if necessary. Hang on.

YKW

Jade disse...

YNW, it was never a "dream of happiness", you know: too complicated. It was a brief glimpse of tenderness, a romantic idea of being loved back even though love itself wasn't possible. A warm feeling of doubt no matter how things looked, so damn absolute in their black-and-white. It wasn't a dream of happiness, it was only a deep wish for a smile in the soul. A thing for me to grab and repeat "it's ok, at least he loves me" when all the rest crashed down. Hopelessness, in fact, doesn't suit me. I'll have to learn to deal with it. And I will, no worries. Thanks

Carolina do Mónaco disse...

Gosto muito deste filme. Aliás, poucas vezes me tenho surpreendido com os filmes depois de ter visto magnólia.
Como ainda estou muito traumatizada com a poesia e as dissecações feitas em sala de aula, posso dizer aqui que não gosto de poesia. Eu é mais prosa e talvez um dia também prozac.
Jadinha se ouvires bem a última parte da música em jeito de esperança, a aimee mann escreve e canta:

"Prepare a list of what you need / before you sign away the deed/'Cause it's not going to stop/ [...]So just give up"

Give up! Desiste do que não interessa. Faz a tua lista do essencial e deita os restos fora. Nada de guardar restos para pastéis... este não prestam.
Ah e "give up" também de dar murros em pontas de facas, porque aleija que se farta.
So "wise up"!
Agora vou enxugar as lágrimas, porque todo este cd com a banda sonora do filme, me faz chorar que nem uma carpideira em dia de finados!

Jade disse...

É um dos meus filmes favoritos. O Tom Cruise nunca mais foi tão brilhante, a Julianne Moore ganhou para sempre o meu respeito, o Hoffman foi por mim descoberto, enfim... o filme de uma vida com uma banda sonora inigualável. Estive quase para publicar antes o vídeo do "Save Me",mas não era tão adequado. Conheço há muitos anos esta letra toda praticamente "by heart" uma expressão inglesa BRILHANTE para dizer "de cor". E claro que o final diz tudo: no fundo, Wise Up quer dizer, apenas, GIVE UP. Beijos

Shadow disse...

andei numa vida infeliz e assustadoramente paralela e assim k aqui, aos poucos fui espreitando nas ultimas 2 semanas. Passei para dar um beijinho em falta e um até já *

cuidandodemim disse...

Ah, só mais uma coisa. Penso que não estás a fingir. Eu estou na mesma situação que tu... sim, temos histórias (como tu dizes frequentemente) "gémeas"... e não acho que esteja a fingir... Acho que a isso se chama TENTAR...
Bjns