Continuo em interregno, mas em tempo responderei aos vossos comentários, que desde já agradeço. Nesta fase dark, deixo-vos um vídeo (o primeiro!) que espelha bem o meu estado de espírito. Eu sou a Grey, a mergulhar na banheira e a largar a mão. Sou eu. Sou eu, "estatelada no chão, à espera que alguém me venha levantar", como dizia a Teia que não se deve fazer. Mas sou também, eu, o Mar, como alguém me escreveu hoje "Verde e calma num dia de sol, profunda nos teus segredos; cinzenta e agitada nos dias frios de Janeiro, profunda nos teus segredos." E quando alguém nos escreve assim, coisas bonitas, tão bonitas que nem as sonhamos em fases destas, que nem nos damos sequer ao luxo de desejar lê-las sobre nós, tal é o sentimento de incapacidade e inutilidade que nos assola, quando alguém nos escreve que somos o mar e nos sentimos a Grey a afundar na banheira, e olhamos pela janela e vemos água... nestes momentos pensamos apenas que nos vamos transformar num líquido transparente e puro. E que havemos de encontrar um qualquer caminho para uma qualquer foz, por um qualquer leito, por mais árido, pedregoso, hostil ou abissal que ele nos pareça agora. Nenhum rio recusa o seu correr. Nenhum mar evita as suas marés.
3 comentários:
Jade, Álvaro de Campos é um dos heterónimos de Pessoa de que mais gosto. Muitos dos seus poemas assentam-me que nem uma luva. Um deles é o que te deixo aqui e que talvez te diga alguma coisa também... Beijinho
"O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."
E eu que nunca engracei mesmo nada com o Futurista Álvaro de Campos... estou rendida. Rendida. Nunca devo ter lido este poema. Oe se calhar nunca o tinha lido com a alma. É, de facto, isto. Obrigada, Teia. É, de facto, isto.
O poema já diz tudo, é daqueles que mais gosto...
bj***
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