quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Reunião de Departamento

Extensão. Monotonia. Vozes plácidas. Trocas de argumentos mornos. Atenção desmesurada a pormenores ridículos. Um frio, um frio...
Calça as luvas. Volta a descalçá-las para assinar actas em catadupa. abraça o estojo da Hello-Kitty. Acaricia-lhe as formas. Sente-se tão só. Solitária na vida bem como nas opiniões. Tem vontade de falar. De repetir argumentos revolucionários. Ou infantis e despropositados. Ou simplesmente idealistas, e como tal, advindos de uma mentalidade bota-de-elástico. Pensa um instante: será demasiado jovem ou terá nascido já demasiado velha, com uma mentalidade que caíu em desuso?
Não sabe. Não sabe nada.
Entrevê sorrisos irónicos por parte de alguns colegas. Seria com eles, com os sorrisos, cúmplice, se lhe apetecesse sorrir. Mas só lhe apetece chorar. Desvia os olhos dos colegas para um papel que tem à frente, pedido a uma amiga para disfarçar que, de facto, não tem quaisquer apontamentos a tirar. Ou vontade disso, para que conste.
E as vozes continuam, imperceptíveis, naquela música de fundo que se põe quando se quer estudar.
E pensa, que frio, que frio que eu tenho. Muda de posição na cadeira desconfortável, engole as lágrimas. Alguém diz uma piada e ela ri-se, mecanicamente. De que é que se fala agora? Ah, sim, plano de actividades. Cumprido, pois. Tudo em contexto de sala de aula. Que fome, o que será o jantar? O que tem ela para fazer ao serão? Alguém terá comentado os seus posts no blogue? A mãe terá ligado para o telefone esquecido em casa?
Olha para o relógio, pensa, ainda faltará muito? recrimina-se, pareço os alunos, ainda hoje escreveu um recado a um gaiato por este perguntar duas ou três vezes as horas num espaço de dez minutos. Tem pena que a sua coordenadora não lhe peça a caderneta para escrever um recado à mãe: " A sua educanda sonha acordada nas reuniões de departamento e não dá uma para a caixa". Tem saudades de ser aluna e de lhe dizerem como se deve comportar. Queria que a mãe a obrigasse a entregar os objectivos individuais. Para não se sentir uma traidora, se e quando o fizer.
Tem frio, tem mesmo frio. Recua ao que leu hoje, tenta lembrar-se se escreveu alguma coisa de jeito e suspira quando chega à conclusão que não. Quando dá por si, apercebe-se que tem a cara entre as mãos enluvadas, e abraça o próprio rosto. Que figura, a sua necessidade de carinho e conforto, de toque, de ternura, de algum afecto, de um par de mãos, começa a tornar-se insustentável. Embaraçosa. Levanta de imediato o rosto. Alguém a olha, alguém repara? Não. Valha-nos isso, a suprema contradição de precisar de consolo e, ao mesmo tempo, se sentir tão aliviada por ser apenas transparente.
Parece que está a terminar. Levanta-se. Dirige-se a um colega, faz-lhe duas ou três perguntas. Está de pé, ele sentado. Alguém saíu. O tempo passa e quando dá conta, a reunião parece que afinal continua, porque alguém diz "Prestem lá atenção". Deixa-se estar de pé, e assiste ao resto assim. Tudo lhe parece um filme de que é apenas espectadora.
Agora sim, parece que acabou.
Já em casa, telefona a uma amiga. A mesma que lhe deu a folha onde só rabiscou uns apontamentos e desenhou umas flores. A mesma que se sentou ao seu lado. Ficam muito tempo a conversar. Falam seriamente de avaliação. Revelam receios comuns. Tentam coordenar estratégias. Discutem soluções.
A minha reunião de departamento foi feita ao telefone, em casa, com uma colega de outro departamento presente a acenar em concordância. A minha reunião de departamento, a que contou, a que foi importante, nem foi reunião, nem foi de departamento.
Assim andam as escolas. Assim me arrasto eu, com elas.

5 comentários:

Anónimo disse...

Brilliant example of a "stream of consciousness" excerpt. Brilliant example. Brilliant.
YKW

cantinhodacasa disse...

Fiquei sem palavras.
Beijinho.

Anónimo disse...

Kind of got addicted to this post. Wanna add something: transparency doesn't suit you. You may be a lot of things, but not transparent in this sense, not like invisible, so beware: others are certainly watching (for?) you. So get a grip on yourself girl. Tight hug
YKW

Rosário disse...

Revi-me completamente nesta reflexão! Sinto exactamente a mesma coisa nas minhas reuniões de Conselho de Docentes, de Ano e de Coordenação! Mas eu tenho um truque pra sobreviver a elas: "viajando" para os meus filmes, as minhas leituras, as minhas músicas, os meus lugares...É uma espécie de "auto-ajuda" para situações às quais não posso escapar (tipo reuniões pedagógicas:-)

Jade disse...

YKW, thansks, but you're wrong. That type of transparency really suits me. It's the type of thing that makes me comfortable. At least, yesterday it did.
Maria e Rosário... (suspiro). No outro dia dizia a um amigo "...é que eu adoro dar aulas". E ele respondeu:"Isso é diferente de dizer que gostas de ser professora. É que ser professor é, cada vez menos, dar aulas." (outro suspiro). Ter que lhe dar razão, isso sim, é mesmo triste.