terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Let it Snow

Há coisas que fazemos contra o nosso feitio. Fazemo-las porque nos ensinaram que era assim que se agia correctamente, porque aprendemos quais as regras a cumprir e tentamos cumpri-las, contra tudo e contra todos, agrade a quem agradar. Mesmo que não nos agrade a nós. Hoje, para cumprir uma regra, acabei por me sentir muito má. Muito parva. Muito adulta. Uma perfeita anormal, por isso mesmo.
Nevou na Cidade de Deus. Pela primeira vez, desde que me lembro, em dia de aulas. No meio do primeiro tempo da manhã. E o que fez D. Jade aos alunos, encantados, excitados, no meio de uma alegria e uma magia própria da idade e da inocência? Mandou-os sentar “imediatamente” e fechar os estores. Digam lá que isto não é absurdo… pois. Ficaram tristíssimos, e eu só não me senti pior porque continuou a nevar, intervalo dentro, e eles lá saíram, todos contentes, para o ar gélido da manhã.
E eu penso: que diabo ganhei eu com isto? Nada. Nem mais respeito, nem mais disciplina, nem mais atenção, nem mais concentração. E, cada vez mais me convenço que há regras que não vale a pena cumprir só porque sim, porque somos ovelhas em rebanho ao sabor da vontade de um pastor.
Esta história é paradigmática. Ontem tive uma conversa com um colega meu pela net, que continuei hoje, na sala de professores. Dizia eu que a falta de auto-estima tem a sua causa numa permeabilidade exagerada às opiniões negativas alheias. Que ninguém nasce a sentir-se mal na sua pele. Que é a opinião alheia que nos molda a opinião própria sobre tudo, através do confronto, da comparação, da análise. Quando somos demasiado perfeccionistas, projectamos em nós mesmos o que os outros consideram fracassos. Olhamo-nos ao espelho social e a imagem que temos é uma assimilação dos diversos feedbacks que os outros nos dão. E se somos exigentes, tendemos a achar que as críticas destrutivas são reais e válidas.
As opiniões alheias. As regras estabelecidas por outros, nas quais não fomos perdidos nem achados. A razão. As razões. Perder a razão. Dizia eu a esse meu amigo, a razão, quando se tem, jamais se perde. Não é por gritarmos, por dizermos palavrões, por sermos incorrectos ou perdermos as estribeiras que perdemos a razão que temos, essa agora. Podemos perder a calma, mas por que havemos de perder a razão?
Por isso, de há uns tempos para cá, decidi ser mais crítica em relação às opiniões alheias. Afastar-me daquele tipo de pessoas que eu sei que me deita abaixo. Erguer uma parede entre a minha sensibilidade e quem dela pretende abusar. A quem me manipula os humores. A quem sabe sempre o que dizer para me deixar feliz ou a sentir-me o ser mais miserável do mundo. Fazer orelhas moucas a comentários desagradáveis ou deliberadamente melífluos. Porque não há nada que mais me deprima e arrase a auto-estima do que me sentir usada, do que me sentir um joguete ou uma marionete nas mãos de seres com intenções duvidosas. Não gosto. Não gosto que se aproximem de mim, me rodeiem e acarinhem, para que a estocada doa mais. Não gosto que me usem para chegar a outras pessoas, para obter informações, para beneficiar da minha ajuda, para abusar da tolerância e disponibilidade que ofereço sempre a quem me trata bem.
Tratar bem e gostar são coisas diferentes. Eu tendo a gostar de quem me trata bem, sem me aperceber que nem toda a gente que me trata bem gosta de mim. E isso acabou. Já vi muito, já ouvi muito, já passei por muito, já chorei demais.
Há que distinguir as regras dos outros das nossas próprias regras, há que distinguir o Eu do Outro. Por isso, da próxima vez que nevar, vou sair porta fora com a minha turma, saltar e dançar no frio do pátio e tentar apanhar os leves flocos com a língua, enquanto me deixo fotografar por um qualquer telemóvel de um aluno em extâse.

13 comentários:

Sílvia disse...

É tão bom esquecer as regras de vez em quando e simplesmente deixarmo-nos levar, sem pensar no que os outros irão achar, se nos vão criticar, se vao pensar que somos as piores pessoas do mundo porque simplesmente fugimos as regras, infringimos aquilo que se considera "correcto"...

bj***

Jade disse...

Exacto. Há que olhar as regras com espírito crítico, somos seres pensantes. Se para não "perdermos a razão", não estrebuchamos, não nos impomos, não nos revoltamos, não somos melhores por isso, pelo contrário, somos desleais connosco, auto-violentamo-nos. Para quê? Para nos respeitarmos menos. Venham mais dias de neve.

Carolina do Mónaco disse...

Buy a pair of leather all stars just in case it snows again.

Shadow disse...

bem... eu provavelmente tinha ido dar aula po exterior.... :D e se desse para fazer bolas tá visto que o "aquecimento" ia ser jogar ao "mata" :D

mas isso sou eu (se não apanhasse uma turma de betos e chocos) que visto pijama para trabalhar e sou sp a primeira a chegar à sala dos professores em horario de intervalo! leia.se Ed. fisica lol

MS disse...

"Há coisas que fazemos contra o nosso feitio. Fazemo-las porque nos ensinaram que era assim que se agia correctamente, porque aprendemos quais as regras a cumprir e tentamos cumpri-las, contra tudo e contra todos, agrade a quem agradar. "

Pois foi o que me aconteceu também, já somos duas. (na mesma escola)
Será que houve mais alguém?? Espero que sim (para não me sentir pior) ou que não (por causa da alegria dos alunos)
Bem como o teu novo visual (blog) a esperança é a última a morrer, pode ser que amanhã neve novamente e eu já deixe os alunos aproveitarem o momento.

Jade disse...

OK, Carolina, deves pensar que o meu ordenado é para derreter em All-Stars, não??? Os nossos blogues verdinhos (o meu de inveja do teu) estão liiiindos!
Shadow, a malta do pijama e do apito é quem mais curte. Não é à toa que são os ídolos da rapaziada...
MS, o cagaço que me pregaste até perceber quem tu eras... LOL! Amanhã, a nevar, que seja de tal maneira que feche a escola... antes do meio-dia!
Bjos a todas

Kok disse...

-Eu sou pelo último parágrafo!
-E depois?, dirás...!
-Depois nada. Só quis dizer que sou pelo último parágrafo!
Ah, e também recordar o que disse António Aleixo:
A razão mesmo vencida, não deixa de ser razão!
Pronto!

Carolina do Mónaco disse...

Umas galochas no xnês então...

Jade disse...

Kok, fizeste-me lembrar aquele anúncio da Pedigree "Nós somos pelos cães". Já estive para escrever um post inspirada nesse lema...
Carolina, tudo o que quiseres, menos galochas, tá? Muito plástico, fazem transpirar dos pés e lembram cheiro a peixe e pregões no mercado. O que eu odiava ir à peixaria do mercado com a minha mãe, quando era miúda... um trauma, até hoje. Antes descalça. Beijos aos dois

Shadow disse...

da rapaziada até somos! agora se somos profAS só o somos mesmo da rapaziada... que normalmente as meninas não nos podem ver à frente.

Costumam enfiar no neuronio que andamos d'olho no jeitoso (ou não) lá da sala de professores... e que os rapazitos só têm olho pa nós e não olham para elas lol. Mas pronto... isto lá pa março qd (se dá finalmente a sinapse e)percebem que nem uma nem outra são verdade, ou mesmo que afinal tinham razão nas duas... por essa altura viramos idolos e concelheiras. Enfim! Viva é poder por os caramelos a correr e a atirar com bolas ao cromo MOR lá da turma (e de x em qd a outros, só para disfarçar lol) :D

Jade disse...

Que cruel, Shadow. No meu tempo a croma era eu... e ainda hoje fujo de jogos de equipa como o diabo da cruz...

cantinhodacasa disse...

Olá Jade.
No passado dia 9 , caiu um nevão bem forte na Vila onde trabalho, a 16 km de Braga.
Começou a nevar cerca das 8h30m, mas com grande intensidade, por volta das 9h30.
Na aula da 10h10 foi um problema sossegae aquelas crianças que queriam brincar pela primeira vez na neve.
Pois bem, 10 minutos depois da aula começar, e percebendo o receio que eles tinham que deixasse de nevar e não pudessem usufruir da brincadeira de tão belo cenário, deixei-os sair da sala por 3 minutos.
Eram os únicos alunos que andavam a saltar, aos gritos , excitados, sem casacos, atirando uns aos outros os pedaçoe de neve que apanhavam do chão
Entraram para a sala de aula todos molhados e com as mãos vermelhas e geladas.
Consegui que eles se concentrassem, mas com a promessa que os deixaria sair mais cedo da aula 15 minutos para poderem brincar á vontade.
A promessa foi antecipada, porque as aulas foram interrompidas e todos tivemos que regressar ás nossas casa.
Quanto aos comentários e conversas na sala de professores, acredite, há já muito tempo que tomo a aitude que a Jade tomou.
E sabe que na nossa classe há muita cobardia!
Biejinho

Alexandra disse...

"Dizia eu que a falta de auto-estima tem a sua causa numa permeabilidade exagerada às opiniões negativas alheias. Que ninguém nasce a sentir-se mal na sua pele. Que é a opinião alheia que nos molda a opinião própria sobre tudo, através do confronto, da comparação, da análise. Quando somos demasiado perfeccionistas, projectamos em nós mesmos o que os outros consideram fracassos. Olhamo-nos ao espelho social e a imagem que temos é uma assimilação dos diversos feedbacks que os outros nos dão. E se somos exigentes, tendemos a achar que as críticas destrutivas são reais e válidas."

Eu sou exactamente assim. Perfeccionista, vou-me abaixo com qualquer crítica, ainda que seja a mais simples crítica construtiva que possas imaginar.
Adorei este texto. Hei-de, um dia, conseguir ser como tu, e afastar-me daquilo que não me acrescenta nada de novo. Ser mais selectiva e menos permeável.

Beijinho*