Acordei tarde, hoje. Acordei tarde e pensei, último dia de Janeiro. Outro sonho por água abaixo. Último dia de Janeiro. Podias estar a trabalhar há cinco horas na tua tese. Não estás, nem estarás. Acabou. Esquece, desiste.
Tomei o pequeno-almoço e resolvi ver "As Vinhas da Ira", de John Ford. Não consigo transmitir a profunda impressão que me causou. Tocou-me verdadeiramente fundo. De forma tão verdadeira que me senti esbofeteada por essa verdade, como se a mentira me vestissse desde sempre, como se já nem a soubesse identificar como tal. Não chorei uma lágrima, mas fiquei sem respiração algumas vezes, abri muito os olhos outras, e senti-me swept of my feet, outras tantas. É um filme muito político, acho que se o tivesse visto ainda adolescente teria vivido a minha vida de uma forma totalmente diferente. Não que a tenha vivido mal, vivi-a, apenas, iludida, metida numa redoma de vidro ou numa bola de sabão, nem sei. E não, não é por causa de um filme que vou, agora, viver de outra forma diferente da que conheço. Não o saberia fazer, faltam-me coisas importantes.
Mas, mal abri a net depois disso, depois de ter feito o almoço e almoçado às cinco da tarde, dei com a notícia dos problemas na fábrica Bordalo Pinheiro no Sapo e a primeira coisa que me ocorreu foi... e ainda dizem que não andam a f*der o Zé Povinho!, e surpreendi-me a mim própria, nesta muito estúpida consciência social que nunca tive. Quero dizer, nunca tive nesta dimensão política. Tenho andado metida em politiquices, é verdade. Desde as manifestações contra a PGA, até ao Não Pagamos em que vi, estupefacta, uma colega minha negra das bastonadas que levou mesmo ao meu lado, até todas as greves que já fiz enquanto professora, mas sempre uma outsider dos partidos, e também, principalmente, dos ideais, das campanhas, das lavagens cerebrais panfletárias. Sempre.
Mas chego agora à conclusão que pouco se consegue quando se seguem convicções individuais, mesmo que connosco esteja a razão. Nada se consegue.
E hoje apetece-me um interregno.
Fui confrontada com a minha vida acumulada de desistências. De desistências de coisas importantes e ao meu alcance, que deitei ao lixo por andar preocupada com outras que jamais terei. Fui confrontada com a minha inutilidade, a todos os níveis, como defensora das minhas causas, como empreendedora dos meus objectivos, como filha pródiga, como mãe inviabilizada, como mulher, amante, companheira, de um homem que não me quer, mas sobretudo, com a minha inutilidade comigo mesma.
Depois o meu mundo ruíu o que faltava, pela legenda de uma foto que li noutro sítio qualquer. E estou muito cansada de ser quem sou. Apesar de todas as minhas qualidades, de todas as minhas conquistas, de tudo o que tenho, não tenho tudo, mas ao contrário de muitos, o que me falta é o mais importante. É de facto, o mais importante. E, Pan, a propósito de uma conversa que tivémos aqui há uns tempos, lembras-te da "pergunta para queijo"?, o mais importante, não depende de mim. São as leis da sorte e azar.
Preciso de um interregno. Preciso de renascer, ou apenas de acabar. Há muita gente que mudou de vida depois dos trinta. Serei eu capaz disso quando nunca fui, nunca, mais que uma completa incapaz? É que não se trata de mudar detalhes, ou pormenores, precisaria de acordar outra.
A empregada da minha mãe, que foi sempre muito mais que isso, sempre foi família, tem hoje oitenta e poucos e continua a trabalhar lá em casa. Tiraram-lhe um sinal e veio o resultado: maligno. Recebi essa notícia pelo telefone ao acordar e pensei, uma vida inteira de trabalho duro e pobreza, uma emigração esperançada para África e um retorno na miséria, um filho que está longe, um marido já morto, uma casa fria, e é assim, é assim que vai tudo acabar? Que mundo é este? Que vida é esta?
Depois vi o filme. Agora penso na minha, na minha própria vida. Refém dos meus medos, mas também das minhas realidades, de uma doença semi-incapacitante, dos sonhos perdidos pelo caminho, dos projectos abandonados entretanto, das lutas travadas, das que estão a decorrer neste momento, das oportunidades que nunca cheguei a ter e daquelas que desperdicei.
Não tenho tudo. Mas o que mais me dói é não ter o mais importante.
E hoje só me apetece fugir. Hoje só me apetece desaparecer. Só me apetece um intervalo. Ou um fim. Hoje apetece-me parar.
6 comentários:
Um olhar rápido (hoje e agora) pelos teus posts destes últimos dias, e que a minha ausência não permitiu, em tempo, a leitura.
Este olhar rápido não foi tão rápido assim; deu também para ver. Como sabes, não é sempre a mesma coisa, o olhar e o ver.
Eu também não gosto dos dias cinzentos, nem das noites de breu.
Mas acredito que depois destas e depois daqueles há sempre uma noite de estrelas e um dia de sol.
Faz um intervalo mas não queiras desaparecer; podes sempre parar um pouco, sem nunca terminares.
Deixo-te 1 beijo!
Se considerares que o que disse tem algum sentido para ti, então é porque o que olhei, vi e percebi. Senão..., não!
JSJ
Compreeendo o que sentes e um pequeno interregno para repensar só faz bem, mas continuar é um must...
...baixar os braços não é desistir da nossa vida actual que tanto nos consome (... com o que fomos... o que não fomos... o que não conseguimos ser e poderiamos ter sido... ou ter tido)
... baixar os braços é desistir de quem queremos ser, do que se quer ter, da vida que se quer viver... e sim tudo ainda é possivel..
Este tempo cinzento também não ajuda a andar de cabeça erguida, encolhemo-nos a cada pinga que nos cai na cabeça... olhamos para baixo quando deveriamos estar a olhar para cima... para a frente... para o futuro...
Hoje em dia cada vez que penso em parar/desistir/hibernar... vem-me sempre uma pergunta à cabeça... o que me consumirá mais? é parar agora, deixar andar... ou daqui a uns anos estar a marterizar-me por nada ter feito por mim, e ter deixado andar, e não ter vivido...?
...pois ... pelo menos... temos que tentar... tentar viver a vida como queremos... obstaculos/problemas sempre existirão, ... novos surgirão... enfrentemos ou contornamos os que nos são pessoais (os outros só nos desgastam)...mas quem sabe o que estará do outro lado deles... e seguir sempre em frente ...
se no fim não conseguirmos...pelo menos tentámos... mas se não tentarmos ... não iremos conseguir de certeza.
Interregno mas pouco Che-ra-Jade. Reune as tuas tropas, estabelece objectivos... e segue em frente ("HASTA LA VICTORIA SIEMPRE")... e não olhes para as derrotas passadas... pois não são indicadores de derrotas no futuro ...
Beijos e Interregnos NIPT Jade.
PS: Foi grande mas quis compensar a minha ausência ;-)... não foi nada, apenas disse o que achei que devia dizer..
Fica Bem.
Nem sempre tenho tempo para te ler. Apesar de sempre gostar do que leio. Percebo-te muito bem. Sei do que falas. Nada te posso dizer que não seja um abraço sentido e em silêncio. Gostei do filme também. Gostei de te ler. Gostaria de te poder ajudar.
XinXin
Jade, o teu blog provoca-me sempre sentimentos contraditórios: adoro vir ler-te, mas sempre que o faço sei que vou encontrar palavras que são o espelho do muito que sinto, mas que não tenho (ainda) a coragem de expôr.
Mas ler-te faz-me também ver que não sou a única a pensar nos momentos e nas acções inúteis, no tempo gasto a dar murros em pontas de faca, na esperança depositada no vazio...
Contudo, tenho, apesar de tudo, conseguido virar a mesa em alturas cruciais e mudar a sorte do jogo, porque não baixo os braços, porque não desisto, porque me recuso a entregar o "ouro ao bandido". Não tem sido fácil, nada fácil mesmo, sobretudo quando se luta sozinha, sem reforços, sem rede que nos ampare quando nos desequilibramos, quando caímos... E caímos muitas vezes! Mas o que não podemos fazer é ficar ali, estateladas no chão, à espera que alguém venha em nosso socorro. Somos nós que temos de arranjar força (tirada sabe-se lá donde)para nos reerguermos e para fazer com que cada dia valha a pena, mesmo os que são destituídos de cor e de brilho.E se eu consigo, tu também o consegues!
Desculpa, Jade, por me ter deixado levar pelas palavras. Estive para o fazer por mail, mas...
Beijinho
Não me vou identificar, poderia ser qualquer um que conheces e te conhece. Nem seria necessário ter contigo uma relação de amizade.
Passas por fases de desespero e desistência periodicamente. Não sou ninguém para as julgar, para te dizer se és covarde ou corajosa, nestes momentos. Nestes momentos, apenas temo por ti, pela possibilidade haver um deles em que não te aguentes à bronca.
Mas, aceitando todo o conjunto de coisas que pensas de ti mesma, sabendo que és lúcida e exigente, aceitando que nada em ti te agrada ou sentes que mereces, que te esforças por reagir mas vais levando estalos uns atrás dos outros, há coisas de que te quero lembrar:
Uma pessoa inútil depende dos outros para tudo e não dá nada em troca. Uma pessoa inútil escolhe os caminhos mais fáceis e assim aceita tudo o que a vida lhe dá sem esforço. Uma pessoa inútil não contribui, não partilha, não oferece. Achas que és tu, essa pessoa? Achas que não dás nada a ninguém, que não ofereces ajuda, sorrisos, tempo, carinho aos outros? Achas mesmo?
Poderia lembrar-te que já foste operada uma dezena de vezes, e que, na última, à tarde, estavas noutro hospital a visitar uma aluna tua, cheia de flores e presentes.
Podia lembrar-te das vezes que saíste da Cidade de Deus para Lisboa porque o tom de voz da tua mãe ao telefone "te preocupou".
Podia lembrar-te que és professora, uma das profissões mais generosas do Mundo, aquela em que mais não fazes senão dar, oferecer, partilhar.
Podia lembrar-te que não há ninguém que te passe pela vida que te consiga ficar indiferente.
Podia lembrar-te que, exactamente por amares tanto e tantas vezes pessoas que nem sequer em ti reparam, provas que não és inútil, que sabes dar sem esperar em troca, por mais que isso te dôa, és uma pessoa de ofertas desinteressadas.
Não és inútil. Por mais que ninguém precise de ti, nem te agradeça, nem te acarinhe, nem sorria à tua mera presença, não és inútil. És o contrário da inutilidade.
Olá Jade.
O pouco que conheço de si é pelos posts que escreve.
É uma pessoa culta, jovem, mas por vezes com uma concepção de vida um pouco péssimista.
Mas ao ler o comentário do anónimo, que a conhece muito bem, fiquei a entender que a Jade já passou por situações físicas que a põem, por vezes, céptica e negativa.
Contudo, gostaria de lhe dizer que há muitas Jades que, de modos diferentes, sofrem mas estão prontas para se darem aos outros.
O seu problema está na parte emocional. O carinho que precisa, a partilha, o amor, fazem parte da sua revolta, desses momentos que apetece desaparecer.
Entendo bem tudo isso, mas Jade Sweet, lembre-se que a vida é efémera. Tente viver sem muitas confusões nessa cabeça jovem, cheia de ideias e conhecimentos.
Lembre-se que não parecendo, há muitas pessoas que a admiram.
Nunca perca a esperança. Ela faz-nos ver que amanhã ser
a diferente.
Um beijinho
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