Sentada num braço do sofá, à janela, olha a chuva e é abraçada pela sensualidade da noite escura. Deixa-se estar a fumar, sentindo o letal companheiro entre os dedos, enquanto relembra todas as palavras escritas e lidas nas últimas horas.
Envolve-se mais na manta que lhe aquece o corpo sem lhe resguardar a alma, e sente no tecido toda a proximidade que lhe falta, as suas ausências na pele nua, o tempo que passa grão a grão, na ampulheta.
Olha o pátio vazio, enquanto a música clássica chora baixinho e o aconchego não disfarça tudo em que evita, disciplinadamente, pensar. Surge-lhe uma vaga ideia, uma leve vontade, de pegar no carro e ir madrugada fora, ao sabor de um destino imprevisto. Fazia isso amiúde, há poucos anos atrás, pela serra, em direcção à barragem, ao encontro das piscinas naturais, as estrelas por milagre sempre novo.
A estrada. Afasta a ideia antes que não lhe consiga resistir e fique por aí parada, no meio do nenhures, com todo o tipo de sombras que traz coladas a si a envenenar-lhe os sentidos.
Má ideia, má ideia. Boa ideia é ir deitar-se, abraçada à bonequinha de sempre, de menininha que nunca deixou de ser, com o cheiro da infância e do avô, da mãe e de todos os brinquedos, com o cheiro de casa, o seu cheiro infiel a mil perfumes, o seu cheiro envolvido em sorrisos infantis e sonhos de todas as cores.
Sim, boa ideia, essa do leito frio e gigantesco, onde se pode esticar e ainda assim adormece sempre encolhida, na posição de um feto que goza o supremo privilégio de um lugar seguro e da mais profunda ignorância como verdade absoluta.
Apaga o cigarro e deita um último olhar à noite escura, e ao vidro molhado. Antes de sair da sala, ainda hesita um breve instante, como se uma voz a chamasse. Aguarda. Não há palavras, não há murmúrios, não há sequer um breve sussurrar.
Mas sente-lhe a presença. Sorri. Em voz baixa e meiga, tão baixa e meiga que nem a reconhece, diz, estou bem. Descansa, que estou bem. E, apagando a luz, dirige-se para o quarto, já desacompanhada.
Verdadeira Poesia
(o blogger Kok sugeriu-me que lesse um texto seu que entra em diálogo literário com este meu, o que fiz prontamente. É um texto de Abril, e as semelhanças são poderosas. Esta foi a imagem que ele escolheu para ilustrar o que escreveu então. Além de achar apropriado deixá-la aqui, a assinalar os dois textos gémeos, não pude deixar de sorrir por outra coincidência: esta imagem das gotas de chuva a criar ribeirinhos nos vidros das janelas é-me muito grata, muito querida, muito especial. Thanks, KoK)
4 comentários:
Alguém já afirmou que "não há coincidências".
E se calhar não há mesmo! Sei lá...!
Também não sei se alguém alguma vez fez primeiro a "coisa" e só muito depois encontrou para quem tinha sido feita.
Mas não importa. "Dias cinzentos" foram escritos para ti! Basta "catares" no meu blog.
Obrigada, KoK. Gostei do texto, mas o que me pasmou por coincidência foi a imagem. Há coisas inexplicáveis. Mas devo-te o meu sorriso de hoje
1-Não tens que agradecer.
2-Afinal sempre há coincidências? Bom que a janela te trouxesse boas recordações!
3-O teu sorriso com 3 dias (só hoje o vi), está óptimo; parece inclusivé que é de hoje...!
Beijos (e ri-te com frequência e abundância).
Foi uma coincidência dupla: o título do meu texto foi escolhido sem saber que a imagem ia ser esta, tão especial. Bj
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