sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hoje


… apetece-me falar de escola. Já sei que vai ser uma desilusão para a maior parte dos assíduos deste blogue. Para mim, é sempre, quando abro os meus blogues favoritos à procura de novidades, da publicação de uma foto, um poema, um desabafo, uma piada e trás, um texto sério sobre um assunto gasto.
Mas hoje, apetece-me falar sobre escola. Pior, apetece-me falar sobre o modelo de avaliação do desempenho docente. Não lhe vou fazer uma análise. Há textos publicados por gente séria que o faz bem melhor que eu, quer porque conhece a fundo a legislação e suas consequências, quer porque percebe de sociologia e direitos laborais, quer, muito simplesmente, por estar fora do sistema, não ser político ou professor, e ter, por isso, uma isenção que eu nunca terei.
Vou escrever um texto parcial. Preconceituoso. Rotulado. Intolerante. Politicamente incorrecto. Manipulador. Interesseiro. Incómodo. Criticável. E, por isso, absolutamente genuíno. A minha opinião sincera sobre este assunto.
Quando ouvi falar, há muitos anos atrás, em avaliação do desempenho, fiquei literalmente feliz. Por um milésimo de segundo. No milésimo seguinte, pensei… isto vai dar uma bronca de todo o tamanho.
Num Mundo perfeito, ou numa sociedade aceitável, não haveria nada mais justo que premiar a competência através da progressão da carreira. Acontece que nós não estamos em nenhum desses casos.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu admiro fossem premiados. Gente que dá o litro. Gente que pensa muito na melhor forma de ensinar os miúdos. Gente que tenta ser original quase todos os dias. Gente que sabe a sério do que fala. Gente que os alunos temem mas adoram. Gente que dá más notas, se for preciso. Gente que faz participações disciplinares ao mínimo desrespeito. E há muita gente assim. Tanta que não cabe em cotas. Por isso sou contra elas. Pelo menos, na teoria.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu desprezo fossem postos no seu devido lugar. Gente que não faz nenhum. Gente que devia estar em casa, com um atestado por doença mental e é obrigada por um estado hipócrita, a ir para as aulas dizer baboseiras. Pôr alunos a jogar cartas. Fazê-los passar noventa minutos a copiar textos e listas de vocabulário para os manter caladinhos. Falar da sua vida pessoal. Dizer mal dos colegas e dos antecessores que não ensinaram nada. Gente que não tem vocação nem vontade. Gente que nem sequer gosta ou compreende crianças e adolescentes. Gente autoritária que descarrega as suas frustrações na parte mais fraca. E também há dessa gente aos magotes. Para esses, não há cotas. Logo, sou contra as cotas. Pelo menos, na teoria.
Havendo cotas, não deveriam abranger todas as excepções à regra? Porque a senhora ministra defende que as cotas não são uma medida economicista. Nesse caso, são o quê? Dizer que numa escola em que há cinco pessoas excelentes, só duas podem ser assim avaliadas é o quê? A avaliação não se quer um processo justo e isento? Que justiça têm as outras três?
Adiante. A reforma na avaliação foi legislada, e os docentes sublevaram-se. Tardiamente, no meu ponto de vista. Porque antes de se legislar a avaliação, dividiu-se a classe em duas partes. Os titulares e os outros. E, pasme-se. Quem vai avaliar a maioria dos colegas são professores que nunca deram provas da sua própria competência. Chegaram a Titulares por Passagem Administrativa, aquele 10 que depois do 25 de Abril tanta gente obteve. Uns que mereciam 18. Outros que não passsariam nunca do 5. Estão a ver onde quero chegar?
E se há titulares irrepreensíveis, também os há deploráveis. Todos rotulados pela mesma bitola. A maior parte deles, se não todos, avaliadores de pares. Como já disse, no meio da minha atitude desbocada e irresponsável, ouço e vejo muita coisa. E não só na minha escola. Vejo titulares arrependidos de terem concorrido ao lugar porque “agora têm muito trabalho”. Vejo titulares que parecem pavões armados porque, com certeza, nem eles próprios nunca pensaram que com o pouco que sabem e o menos que fizeram toda a vida, algum dia chegariam a ser importantes. Essa importância que agora, que continuam a não saber nadinha, mas a trabalhar um pouquinho mais, toda a gente lhes dá. E vejo titulares profundamente desagradados com o novo estatuto, e muito desconfortáveis por ter que avaliar colegas. Muitos deles com mais habilitações. Outros com maior vocação. Outros, uma completa nódoa. E esses titulares, os humildes, são, sempre, os que mais sabem, os que mais trabalham, os que mais deram e dão à nossa classe.
Os professores manifestaram-se em massa. Fizeram greve em massa. Assinaram moções em massa. O Governo está autista. A avaliação, ao que parece, continua. Sucedem-se ultimatos, chantagens e ameaças. Não me parece bem. Não me parece mesmo nada bem.
(agora vou sair, mas este post chatíssimo ainda não acabou.Cá voltarei)

4 comentários:

Mirovich disse...

Jade, Subscrevo na integra o que escreveste!
Acrescento algumas definições que acho que encaixam perfeitamente em alguns dos que fazem parte da classe: Invejosos, Engraxadores, lambe-botas, mentirosos, oportunistas.
Na atmosfera das escolas existem estes "Cromos" como tambem nas empresas, onde a competição entre colegas às vezes ainda é mais acentuada.
Talvez seja a mentalidade herdada do Estado Novo.

Inside me disse...

Olá Sweet
Bem me parecia que ainda não tinha acabado...estáva a chegar perto da ultima linha... e estava a dizer para mim...

...falta aqui qualquer coisa...
... foi tudo tão Sweet , leia-se soft... cheio da bom senso...ainda sem aquela visão especial a que Jade nos acostumou... mas justa...

Mas devo dizer uma coisa... trabalho numa empresa... e a mesma politica de cotas se aplica na avaliação do empregado... como que a dizer só 10% podem ser excelentes e trabalhar a 100%... os outros 90% podem trabalhar só a 50% ...porque nunca chegarão a ser excelentes... não temos mais vagas para excelentes... ->Portugal ...baixa produção...

... e assim vai o pais...onde não se aspira a ser excelente... pois não há vagas...

...como te compreendo!!!...aguardo o resto do post...

Sweet Che-ra-Jade ;-P

Anónimo disse...

Tanta coisa interessante para falar e logo suscitar um tema que já não se pode ouvir. Catano. Esforço-me em vão para perceber porque receiam os professores a avaliação do desempenho. Só se... é por uns não estarem preparados pedagogicamente para observar e avaliar (quem sabe mais do que eles). Parecem pombos, de peito inchado, mas tremem só de pensar na quantidade de "people" que pode requerer a dita. Outros, porque de professores só têm o nome rezam para que o simplex dure, dure...porque sendo maus, têm no mínimo BOM. Andam felizes. É vê-los gargalhar na sala de profs e gritar: suspenda-se!!!. E depois há os Nogueiras e outros que tais que não dando aulas há 20 anos sabem melhor que ninguém o que é a escola hoje e o que deve ser amanhã. Anulam-se umas gazetas marcam-se outras. Fantástico. E depois há, ainda, uma senhora que resolve reformar, fazer mudanças, mudanças a cada sol que nasce. Irá dar voltas e voltas até tombar, tonta, sem qualquer glória nem pedreira por perto para se apoiar. De luto, à espera de outra reforma ficam os putos, esses que deveriam ser a prioridade a cada sol...Pois é! Falar tanto (e tão alto) de avaliação. Para quê subscrever listas colectivas e depois andar a perguntar baixinho: então quando entregamos os objectivos? Tá atrasado, tá atrasado. Não pode ser. Greve? claro que faço catano.
Falemos antes de coisas sérias porque quem muito barulho faz pouco siso traz. A greve desta vez é à 2ª feira e pretende alterar o ECD que está quase a sair lol. Muito pertinente. E depois há os putos, esses que deveriam ser a prioridade a cada sol...Pois é! Ouvimos os seus disparates diários mas também vemo-los crescer com o nosso "adubo". São parvos? pois sim mas esses estão na idade. Agora os que se pavoneiam ou porque são titulares ou mesmo suplentes que vão ter bom esses sim são bué de parvos.
Catano escrevi demais.
Prof Catano

Shadow disse...

ainda só li esta parte. Subscrevo, linha a linha, ponto a ponto!