... mais chuva. A protecção civil dá alerta laranja para todo o país. Não me incomoda, gosto de laranja e toda a gente já percebeu que também gosto de chuva, sempre é um pretexto para perguntar ao Pan, de manhã, tenho uma franja ou transformei-me num caniche de casa até aqui?, ao que ele, normalmente, responde com um ganido triste.
Hoje dormi muito. Deitei-me ainda não eram onze e acho que isso não acontecia desde os meus dez anos. Não dormi lá muito bem, mas hoje já me senti mais equilibrada, mais de pés na terra, sentindo o peso da gravidade a atar-me ao chão. Os dias entraram, novamente, numa monotonia confortável.
A Cidade-de-Deus também tem as suas coisas boas. Aquelas que me fazem hesitar, ponderar ficar por aqui. Há coisas que Lisboa não permite, como os amigos a bater-nos à porta para um café de surpresa (mesmo que dêem com o apartamento vazio, a cidade é pequena, não se perde muito em tentar) ou a ligarem-nos para saber se queremos ir lá jantar a casa, já com o jantar feito. A proximidade de tudo é um conforto. A minha mãe costuma dizer que se sente segura comigo aqui, porque se me sentir mal ou tiver uma crise, em dois minutos tenho cá alguém para me valer, e tem razão.
Outra coisa boa aqui é o tempo. Passa devagar. Permite coisas como almoços em boa companhia, porque sim, porque calha. Hoje foi um desses dias. Em Lisboa tens que planear tudo com antecedência, fazer marcações, perder tempo a procurar estacionamento, a esperar para te sentares, a irritares-te com pormenores. Aqui as coisas só dão para o torto quando tens presssa.
À saída da escola, a entrar para o carro, um amigo meu pára o seu carro gémeo do Jade Mobile no meio da estrada e faz-me sinalefas. Vais para casa? Encolho-lhe os ombros. Detesto as sextas à tarde, o primeiro impacto de uma casa vazia mexe-me com os nervos. Espera aí, gesticula ele. Um micro-segundo depois lá estava eu no seu banco do pendura, toda contente, a dizer "Xim... vamos almoxar e dijer mal de todágente, vamox", e a bater palminhas. Em menos de nada estávamos na Praça da República com o suplemento cultural do Público à frente, a falar dos filmes e das peças de teatro e das exposições. Olha, a cinemateca vai passar o Ginger e Fred do Fellini. O G. emprestou-me este DVD, tenho-o lá em casa. (O G. é a minha cinemateca privada, para que conste, e hoje isso ficou provado).
Numa lojinha pequena de sandes e saladas, e tostas com muitos oregãos, que eu fiz o favor de espalhar pela mesa toda, quando me ri demasiado próximo da dita de frango, lá se passou uma hora de almoço em que, afinal, a conversa foi bem mais interessante que a simples troca de cantigas de escárnio e maldizer.
Ontem estava com um humor canino. Hoje, relembrava a esse meu amigo que, da última vez que tínhamos almoçado só os dois, o deprimido era ele. Lembrávamos a causa da sua neura e ele disse, acreditas que não pensava nisso há que séculos? e eu, tendo em conta que almoçámos em finais de Dezembro, como vês, o que parecia o fim do Mundo pouca importância acabou por ter.
E acrescentei, em voz alta, mas a falar mais comigo que com ele (é assim, a verdadeira amizade), e eu tenho muito a aprender com isso.
9 comentários:
São momentos como esse que fazem tudo valer a pena =)
Até por estas bandas os "VVV" têm saudades de ir À Cidade de Deus"
Assim que melhorar o tempo iremos ao Portugal dos pequeninos, serás informada...
LoooL
Concordo plenamente, Sílvia. Adoro almoços sem tempo e conversas deitadas fora. São do melhor que há no final de uma semana de quinta dimensão.
Miro, mi casa es su casa. Ficam no meu quarto, o Vi no de hóspedes, e eu no da Mzinha. E tragam os dados! (Eu trato da vodka)
Quanto ao Portugal dos Pequeninos, se te referes ao original, passo. Passei lá uma tarde com os alunos há dois anos que me chegou para o resto da vida. Parece que ainda estou a ver a cara da MissCovilhã, no autocarro, quando a mentecapta de uma das nossas colegas se pôs a cantar ao microfone...LOOOOOLLLLL!
fazia o mesmo há uns anos... sobretudo pré-blog (The book of shadows). Mais giro que escreve.las é, anos, meses, semanas, ou mesmo só dias depois ler o que ali deixamos...
(Foi aqui que se fez luz, e percebi porque raio dizem os amigos (de nós sagitarios), que:
a) nao fazemos sentido
b) somos parvos
c) damos demasiada importancia às coisas
c) somos MT parvos
e) temos dias que ainda somos mais parvos (todo o sentido de parvoice a boa e a má lol)
e por fim não evitam, nem evitamos nós a rir com aquilo, porque nos sabe bem e porque é, de facto, um atestado à nossa parvoice :)
tá visto que o comentario anterior... caiu no post errado! mas a culpa é tua que a tua escrita anda a passo da chuva que não para. ;)
neste, dizer só, que sem saber por que... fiquei aqui a ver a cena em slow motion de uma "miuda" a encolher os ombros... e depois a falar com as mãos e pressa... e tudo! e... bem, oregãos pelo ar! (custumo ser eu a pro em por a levitar por microsegundos a tralha toda que houver na mesa do café, da sala, da cozinha... e alguns encontroes a copos no restaurante).
Enfim... ficou o sorriso ;) que bom, "ver.te" assim. A amizade é isso mesmo.
Se o primeiro comentário era à cena das cartas fique sabendo Sôdôna Shadow que me dão tudo excepto vontade de rir, mas a colecção começa a 26 de Janeiro, se calhar ainda não há distância lúcida.
O segundo comentário... sem comentários. Até parece que nos estavas a ver (e, já agora, que me conheces desde sempre): Foi linda, a nuvem de oregãos expirada pelo meu riso a meio de uma dentada na bendita tosta. Antes disso, o meu amigo tinha dito, não escolhas essa (tosta, outra que eu não escolhi mesmo) que é muito difícil de comer, sujas-te toda. Ok, valeu a intenção. Sou um caso perdido.
Tu e essa tua mania de não conseguir passar despercebida. Eheheh
Voltei cheia de coisas boas!
Ouvi dizer, ouvi dizer... que queres dizer com "a mania de não passar despercebida?" olha que eu não sou de dar espectáculo, que culpa tenho eu de ser desajeitada?
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