terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Correntes da Amizade

Quem se familiariza com a blogosfera, cedo começa a receber aquilo a que, no domínio dos mails, se chama "correntes da amizade", e entre bloggers se dá o nome eufemístico de "desafios". O princípio é o mesmo, excluindo o facto (decadente) das cadeias da amizade mexerem com as superstições das pessoas e mandarem verdadeiras maldições, do género, se não reenviares esta mensagem em três segundos a três mil amigos, tudo na vida te vai correr mal a partir de ontem. E digo que o princípio é o mesmo porque uma pessoa que recebe um desafio se sente, eticamente, obrigada a cumpri-lo, porque esse convite demonstra interesse por parte do blogger amigo na tua resposta, e um escritor que se preze gosta de não decepcionar, de estar à altura.
Tenho visto, no entanto, coisas muito giras propostas. A nova moda são as listas. As listas, por exemplo, de "Eu já..." e de "Eu nunca...". É sempre uma boa desculpa, pelo menos, para um dia de falta de inspiração. Contudo, depois de ler algumas destas listas, suspiro, reduzo-me à minha insignificância, e não me atrevo a publicar a minha. Porque há gente da minha idade, com listas de "Eu já..." completamente imbatíveis, tipo, "Eu já entrevistei as Spice Girls" ou "Eu já virei as costas ao Herman José" ou "Eu já publiquei um livro que vai na oitava edição". E eu sinto-me muito invejosa e pequenina.
A Carolina lembrou-se, no entanto, de uma lista deliciosa. E essa foge ao espírito competitivo existente em cada um de nós. Chama-se, "eu pensava...", e é uma enumeração de ideias que o tempo, a idade, as decepções e as surpresas foram esbatendo. Aqui vai a minha.
Eu pensava que o verdadeiro amor seria sempre correspondido.
Eu pensava que o amor justificava tudo.
Eu pensava que toda a gente queria ser feliz.
Eu pensava que os fins não justificavam os meios.
Eu pensava que os valores e os ideais se sobrepunham a todos os outros interesses do Mundo.
Eu pensava que os professores serviam para ensinar os alunos.
Eu pensava que com 33 anos seria casada e mãe de filhos.
Eu pensava que as mulheres da minha geração não seriam mais machistas que os homens.
Eu pensava que os homens da minha geração se bateriam pela igualdade de oportunidades com as mulheres.
Eu pensava que tinham acabado os casamentos por conveniência no Mundo Ocidental.
Eu pensava que os amigos podiam dizer tudo o que pensam uns aos outros.
Eu pensava que tinha nascido num país democrático.
Eu pensava que o 25 de Abril queria dizer que o nosso povo não aceitava despotismos.
Eu pensava que os políticos representavam os eleitores.
Eu pensava que quem manda sabia mais que quem tem que obedecer.
Eu pensava que a justiça se sobrepunha às embirrâncias e questíunculas pessoais.
Eu pensava que a solidariedade era uma questão de princípio e não de quintais.
Eu pensava que a avaliação de professores estava suspensa na nossa escola.
Eu pensava que quem tem razão vencia discussões.
Eu pensava que bastava ser competente para se subir na carreira.
Eu pensava que não nevava no litoral.
Eu pensava que todos os adolescentes iam sempre gostar de Inglês.
Eu pensava que as boas pessoas eram sempre recompensadas.
Eu pensava que jamais iria fumar.
Eu pensava que iria viver para sempre em Lisboa.
Eu pensava que toda a gente pensava como eu.

7 comentários:

Sílvia disse...

Gostei. É do tipo eu pensava que conseguia fazer todas as cadeiras estre semestre e pensava mal... lolool

beijinho

Mirovich disse...

É verdade o que dizes Jade!
É verdade, somos Portugueses!
É verdade que vivemos a mentira!
Podiamos enumerar milhões de verdades.
Será que não existem verdades absolutas?

Carolina do Mónaco disse...

Ah Jade Jade eu pensava que a coroa seria sempre minha e afinal tu é que a estás a usar... espontaneamente ali.
Temos de levar este fotógrafo mais vezes. Assim, não nos preocupamos em ficar com recuerdos.
Continuo a gostar muito do gato.

Inside me disse...

JSJ

Eu pensava que não me podias surpreender no post seguinte ... e afinal... mais uns grandes pensamentos de verdades...

Eu pensava que bastava pensar ... mas pensar não basta... é preciso querer e fazer pensar quem não pensa...

Amizades NIPT

Martunis disse...

Saltaram-me à vista duas frases:

"Eu pensava que o verdadeiro amor seria sempre correspondido"

e

"Eu pensava que as boas pessoas eram sempre recompensadas"

Esquece lá isso!

São frases tão verdadeias como o curso do José Pinto de Sousa Sócrates!!!

Jade disse...

Sílvai, é isso mesmo. Eu pensava... entretanto mudei de ideias.
Mirovitch, não, não acredito em verdades absolutas.
Carolina, pois é, tenho uma coroa verde que me fica a matar...
Inside Me, estes "pensava" não são verdadeiros, isso gostava eu que fossem.
Martunis, a questão é mesmo essa, nada do que eu pensava ser ou existir de facto é ou existe.
Beijos a todos

Alexandra disse...

Como se costuma dizer, "A pensar morreu o burro".
Mais vale não pensar em coisas como a do 25 de Abril e tal. Só serve para deprimir por vermos que, afinal, as coisas nunca são bem como pensamos.
Algumas são muito melhores ainda. Como os teus textos, por exemplo. ;)
Beijinho*