sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Auto-Ajuda

Domingo, por motivos que não vêm aqui ao caso, emocionei-me por causa de um blogue. O dito não permite comentários, e como tal escrevi uma carta. Isso acalmou-me, a escrita é uma panaceia, um desabafo. O resultado foi de tal forma satisfatório que pensei, porque não, apostar nisto? Todos nós temos as nossas porras, afirmava H. na sua sabedoria ancestral, vezes sem conta. E a verdade é que me farto de escrever, desde pensamentos e versos soltos na Moleskine, a breves desabafos manuscritos em cadernos sortidos, a histórias de ficção em papéis que tenho à mão, aos posts mais ou menos breves, mais ou menos regulares, aqui no blogue. Os diários, por contraste, aborrecem-me. Quando escrevo, gosto que leiam e os diários íntimos e secretos não me seduzem minimamente.
Então, na Segunda-Feira, comecei a dedicar-me às cartas. A dizer de minha justiça o que me vejo obrigada socialmente a calar, a guardar. E na Terça, achei um piadão à Grey: uma das personagens corria o risco de não voltar a falar e desbobinou às amigas tudo aquilo que nunca lhes tinha dito. Coisas muito cruéis, por sinal.
As minhas cartas estão guardadas numa pasta de seu nome "So, this is Goodbye". E contêm missivas das "palavras que nunca te direi". Passando a pieguice do tema, digo-vos que resulta. Chegar a casa e escrever a alguém aquilo que calaste durante o dia, por motivos puramente sociais e convencionais. Insultares quem te irritou, elogiares quem de direito, desenvolveres outros assuntos que não cabem em locais de trabalho, dirigires-te a alguém que não vês há muito mas cuja imagem te surgiu a despropósito numa qualquer altura do dia, falares do que não podes, ou não deves ou não queres, com quem escolheres. É muito mais giro que um diário, muito mais útil, e ajuda a pôr sentimentos e ideias em perspectiva. Hoje até dei asas à imaginação e escrevi uma resposta a uma das cartas, como se pela voz do destinatário me surgisse... vocês sabem como eu adoro feedback.
É libertador. Sempre fui apologista de que não se deve deixar nada por dizer, e, por enquanto, é engraçado ver que as minhas cartas não são, como no episódio da Grey, escritas fruto da urgência de palavras desagradáveis caladas tempos infinitos. Chego, assim, à conclusão, que calo muito mais a minha doçura que as minhas raivas.

8 comentários:

Sílvia disse...

Eu percebo-te. Escrever de certa maneira acaba por me libertar. Sei que não escrevo totalmente bem mas acaba por ser uma maneira de desabafar. Porque consigo transmitir muito melhor o que sinto por palavras escritas do que por palavras ditas, sei que isso não é totalmente bom, mas pelo menos enquanto forem escritas não ficam por dizer certo?

bj***

Cris disse...

Eu, por acaso sempre tive uma real queda para o diário... Não por uma razão em especial, mas porque precisava de escrever e isso me surgiu como a alternativa mais aliciante.

Escrevi anos a fio... Chegou um dia, em que sem pensar muito nisso, deixei de recorrer ao caderninho e arranjei alternativas. Sem serem diárias, sem serem tão direccionadas... nunca mais voltou a ser o mesmo!

Mas quase tudo o que escreveste hoje me fez sentido e, sinceramente, creio que todo o espírito libertador que mencionaste poderá ser igualmente verdadeiro no diário... depende, se calhar, da forma como o vemos ou utilizamos.

A ideia das cartas e a forma como o descreveste fez todo o sentido para mim. Se tivesse recorrido a esse método, nestes meus 'magníficos' (!) dias... chamando nomes a quem me apeteceu, vociferando argumentos que não podia dizer nos locais onde estive... talvez tivesse chegado a esta sexta-feira à noite (em que o céu resolveu desabar!), pelo menos, um pouco mais leve...

Jade disse...

Sílvia, sim, escritas até acho melhor, porque podemos regressar-lhes sem ter que recorrer à memória. A minha deixa-me ficar mal cada vez mais frequentemente.

Cris, é engraçado estares a comentar este post desta forma, porque queria dizer-te que esta semana andei deveras preocupada contigo. O ambiente não se propicia a grandes conversas, lá está, e outros acontecimentos alcançaram grande plano na minha vidinha, mas uma das cartas poderia ter sido para ti. Surpreendi-te sozinha, umas vezes ao telefone, outras apenas de passagem, com uma expressão muito clara de angústia, ou dor, não sei definir bem. Espero que estejas "coping" com o que quer que seja.

Beijinhos às duas

Cris disse...

Pois... estavas atenta! Esta semana foi mesmo daquelas...

Tenho a plena sensação de ter vivido de forma sobressaltada com bombas constantes a 'caírem-me no colo', num ataque frontal tão acérrimo, que não sei bem em que estado cheguei ao final destes cinco dias.

Seja pessoal, seja profissionalmente o misto de dor, angústia e impotência para contornar todas as adversidades dominou-me de uma forma quase inexplicável! Ver tudo em causa, mesmo o que parecia seguro e minimamente estável e compreender que não está nas minhas mãos inverter essa situação é... doloroso!

Espero que a próxima, mesmo com chuva e frio, seja uma semana mais colorida... por agora, dispenso bem o cinzento!

Esta semana teria sido uma boa semana para escrevermos uma carta uma à outra, porque eu também vi bem a tua carinha triste e de desânimo...

Jade disse...

Podes crer, Cris. Houve uma altura, em que nos cruzámos à saída da casa-de-banho (que bonito... mas acredita que no meio daquela escola tantas vezes hostil, é um refúgio muito acolhedor), em que tive a sensação forte que o que eu lá tinha estado a fazer, (chorar, limpar as lágrimas, voltar a maquilhar-me, respirar fundo, sair...) iria muito provavelmente ser repetido por ti, ou vontade não te faltaria.
Deixa lá, better days will come, mesmo que com chuva lá fora, pelo menos com sol cá dentro.

Anónimo disse...

O problema será sempre os diários cairem na rotina, na repetição porque os dias se repetem, também, e se forem encarados como uma simples descrição dos factos que atrás se viveram. Mas o diário também tem muita reflexão. Ainda hoje leio velhos diários onde escrevi apaixonadamente de filmes que na altura gostei, sensações que senti, pessoas que amei. E gosto. Uma cartinha é sempre bom. Uma cartinha das verdadeiras, como há meses havia duas pessoas que trocavam, ecologicamente no sempre no mesmo envelope, e agora fizeram uma pausa...
Um beijo
Pan

Anónimo disse...

WTF are you doing crying alone in school toilets, girl, are you insane? Give me a break and don't make me get out of my own comfortable path to spank you, princess. No tears. Please don't cry, not alone, anyway. "Don't you cry tonight, there's a heaven above you baby". Axl knew it.
I've even forgot what brought me here to comment. Something about Moleskines and letters. Now it doesn't matter, I'm pissed.

YKW

Jade disse...

Pois, Pan, rendemo-nos aos mails e às new techs. Mas o engrelope está contigo, certo?
Reuse it.

YKW... stop checking on comments and stick to the posts, you nosy tramp.