Quando a loucura chega, enfim, como um bálsamo. Quando, finalmente, perdes a noção da realidade e entras numa bola de sabão, te fechas por fim numa ficção eterna e já nada mais é social, o politicamente correcto morreu como noção e respiras a verdadeira liberdade. Quando a loucura chega, enfim, e os outros escarnecem e comentam, finalmente com razão, olha ao que chegaste, coitadinha, tão funcional que ela era, pobre moça, e tu, que um dia obedeceste a regras e te preocupaste com as mentiras que se diziam a teu respeito e te diminuíam, te angustiaste com as injustiças, choraste com o desamor, agora, que todos comentam a tua triste realidade, não te revoltas mais, não pensas mais nisso, não te incomodas com o que quer que seja, a não ser com a tua mania, o teu sonho, a tua verdade. És Dulcineia, és Cassandra, és Pandora, és simplesmente um moscardo ou uma borboleta, uma árvore ou uma pedra. És uma alternativa à visão comum e ao geralmente aceite como normal.
Quando a loucura chega, enfim, como uma panaceia. Quando não sofres mais, nem te deixas medicar. Quando te entregas a mundos que não existem e não sabes já o que é a solidão. Quando já não sofres, fazes sofrer. Quando tudo na tua vida é a negação absoluta do que deveria ser.
Ontem revi “As Asas do Desejo”, do Wim Wenders, quando cheguei a casa depois de um jantar muito agradável, na companhia de dois amigos. Depois de, com eles, ter escolhido “Notting Hill” para sonhar o mesmo sonho, pela (terá sido quinta, sexta?) vez. Primeiro, a comédia romântica, depois, a filosofia feita imagem. Primeiro, a Julia Roberts “Remember I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her”, depois, o anjo. O anjo que ouve o pensamento dos mortais, dos quais um é “enfim, a loucura”.
Abri os meus blogues favoritos e li-os com todo o interesse do Mundo. Alguns trouxeram-me as lágrimas aos olhos, o derradeiro cansaço, as emoções que engulo. I’m coping, remember? E almejei, de forma egoísta, a loucura. Desejei-a no corpo, na alma. A capacidade de me marginalizar do Mundo, de dar o grito do Ipiranga, de deixar de me tocar com as angústias alheias, de as transpor para a minha própria vida. O desejo de deixar de fazer análises e comparações, de olhar a minha vida pelos olhos dos outros. De passar a sentir o que não existe. De deixar de sentir o real, o que existe, a inexistência, o afastamento, a morte. A alegria dos outros. Os amores alheios. Os sucessos que não são meus.
Enfim, a loucura. Foram muitas, as conversas pela noite fora, nestes dois últimos dias. Falou-se de trabalho, falou-se de literatura, falou-se de amor, de casamento, da dualidade desejo-realidade, de filhos, de divórcio, de optimismo e pessimismo, da capacidade de mudar (achas que é possível, a mudança? Achas que é possível, educar o cérebro? – tudo é possível, quando acreditamos ser capazes. Tudo? Isso soa-me a lugar-comum, e eu detesto clichés. Tudo. É uma questão de tempo e de trabalho. Simplesmente ninguém está para isso.)
Contei-lhes o meu encontro com o médico, o meu encontro periódico com a mortalidade. E vieram as propostas, regadas a vodka laranja e tequillas sunrise, e yoga? E psicanálise? E dança? E que tal tudo junto? E chegava, então, o riso. E mudava-se de assunto, que o riso atrai conversas mais solares. E quando me via, enfim, em casa, sempre de madrugada e sem sono, que o sono pertence aos justos, sorria o sorriso de quem não tem nada, mas tem amigos. Ontem, relembrei, por exemplo, a cena do Notting Hill em que se metem todos no carro para ir salvar o amor da vida de Grant. Quem tem amigos tem tudo. A cena é hilariante, sete pessoas metidas num carro minúsculo, sete opiniões diferentes sobre o caminho mais rápido a tomar, e o condutor aos berros “Eu é que estou ao volante, eu é que decido! James Bond never had to put up with this shit!” Lindo. Um deles a sair do carro para mandar parar o trânsito. Outra de cadeira de rodas, a ser transportada ao colo pelo marido, para não perder o melhor da festa. E lembrei-me dos melhores momentos, das maiores loucuras, dos dias em que “a seita” justificava tudo.
E esta noite sonhei com um rapaz que não conheço. Sonhei com o seu olhar. Lembro-me claramente do olhar e daquele sentimento já perdido de tremor nas pernas e sorriso na alma. Lembro-me do seu rosto. E acho que foi o anjo do Wenders que o criou no meu subconsciente, que me enviou aquele rosto para me fazer adiar o desejo de loucura e alienação. Para me provar que, num tempo de desamor morno, sem sobressaltos, e ultimamente já sem decepções ou tristezas, com momentos cada vez mais raros de nostalgia, com uma atitude de profunda aceitação do vazio, para me provar, dizia eu, que o amor está sempre ao virar da esquina.
Surpreendo-me a mim mesma com o estado de apatia a que consegui chegar. Em que nem o contacto ou as notícias de amores antigos me provocam já, sequer, o mais ligeiro pestanejar. Não me lembro de outra altura da vida em que tenha estado tão desapaixonada. Talvez por isso o tal desejo de enlouquecer de vez, para não ser mais confrontada com a minha própria frieza. Mas olhando o copo meio-cheio, educando o cérebro, como dizia o meu douto amigo, talvez seja assim que se parte de forma realmente sã para a novidade. Assim, sem curar a dentada de um cão com o pêlo de outro, como sempre fiz, conscientemente ou por capricho dos acasos.
Talvez seja assim, desprendida de todas as emoções passadas, olhando para ele como um caminho de não-regresso, que possa avançar no tempo sem ter que me entregar à bênção de simplesmente, enlouquecer.
Quando a loucura chega, enfim, como uma panaceia. Quando não sofres mais, nem te deixas medicar. Quando te entregas a mundos que não existem e não sabes já o que é a solidão. Quando já não sofres, fazes sofrer. Quando tudo na tua vida é a negação absoluta do que deveria ser.
Ontem revi “As Asas do Desejo”, do Wim Wenders, quando cheguei a casa depois de um jantar muito agradável, na companhia de dois amigos. Depois de, com eles, ter escolhido “Notting Hill” para sonhar o mesmo sonho, pela (terá sido quinta, sexta?) vez. Primeiro, a comédia romântica, depois, a filosofia feita imagem. Primeiro, a Julia Roberts “Remember I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her”, depois, o anjo. O anjo que ouve o pensamento dos mortais, dos quais um é “enfim, a loucura”.
Abri os meus blogues favoritos e li-os com todo o interesse do Mundo. Alguns trouxeram-me as lágrimas aos olhos, o derradeiro cansaço, as emoções que engulo. I’m coping, remember? E almejei, de forma egoísta, a loucura. Desejei-a no corpo, na alma. A capacidade de me marginalizar do Mundo, de dar o grito do Ipiranga, de deixar de me tocar com as angústias alheias, de as transpor para a minha própria vida. O desejo de deixar de fazer análises e comparações, de olhar a minha vida pelos olhos dos outros. De passar a sentir o que não existe. De deixar de sentir o real, o que existe, a inexistência, o afastamento, a morte. A alegria dos outros. Os amores alheios. Os sucessos que não são meus.
Enfim, a loucura. Foram muitas, as conversas pela noite fora, nestes dois últimos dias. Falou-se de trabalho, falou-se de literatura, falou-se de amor, de casamento, da dualidade desejo-realidade, de filhos, de divórcio, de optimismo e pessimismo, da capacidade de mudar (achas que é possível, a mudança? Achas que é possível, educar o cérebro? – tudo é possível, quando acreditamos ser capazes. Tudo? Isso soa-me a lugar-comum, e eu detesto clichés. Tudo. É uma questão de tempo e de trabalho. Simplesmente ninguém está para isso.)
Contei-lhes o meu encontro com o médico, o meu encontro periódico com a mortalidade. E vieram as propostas, regadas a vodka laranja e tequillas sunrise, e yoga? E psicanálise? E dança? E que tal tudo junto? E chegava, então, o riso. E mudava-se de assunto, que o riso atrai conversas mais solares. E quando me via, enfim, em casa, sempre de madrugada e sem sono, que o sono pertence aos justos, sorria o sorriso de quem não tem nada, mas tem amigos. Ontem, relembrei, por exemplo, a cena do Notting Hill em que se metem todos no carro para ir salvar o amor da vida de Grant. Quem tem amigos tem tudo. A cena é hilariante, sete pessoas metidas num carro minúsculo, sete opiniões diferentes sobre o caminho mais rápido a tomar, e o condutor aos berros “Eu é que estou ao volante, eu é que decido! James Bond never had to put up with this shit!” Lindo. Um deles a sair do carro para mandar parar o trânsito. Outra de cadeira de rodas, a ser transportada ao colo pelo marido, para não perder o melhor da festa. E lembrei-me dos melhores momentos, das maiores loucuras, dos dias em que “a seita” justificava tudo.
E esta noite sonhei com um rapaz que não conheço. Sonhei com o seu olhar. Lembro-me claramente do olhar e daquele sentimento já perdido de tremor nas pernas e sorriso na alma. Lembro-me do seu rosto. E acho que foi o anjo do Wenders que o criou no meu subconsciente, que me enviou aquele rosto para me fazer adiar o desejo de loucura e alienação. Para me provar que, num tempo de desamor morno, sem sobressaltos, e ultimamente já sem decepções ou tristezas, com momentos cada vez mais raros de nostalgia, com uma atitude de profunda aceitação do vazio, para me provar, dizia eu, que o amor está sempre ao virar da esquina.
Surpreendo-me a mim mesma com o estado de apatia a que consegui chegar. Em que nem o contacto ou as notícias de amores antigos me provocam já, sequer, o mais ligeiro pestanejar. Não me lembro de outra altura da vida em que tenha estado tão desapaixonada. Talvez por isso o tal desejo de enlouquecer de vez, para não ser mais confrontada com a minha própria frieza. Mas olhando o copo meio-cheio, educando o cérebro, como dizia o meu douto amigo, talvez seja assim que se parte de forma realmente sã para a novidade. Assim, sem curar a dentada de um cão com o pêlo de outro, como sempre fiz, conscientemente ou por capricho dos acasos.
Talvez seja assim, desprendida de todas as emoções passadas, olhando para ele como um caminho de não-regresso, que possa avançar no tempo sem ter que me entregar à bênção de simplesmente, enlouquecer.
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
…
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
…
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Drummond de Andrade)
(Drummond de Andrade)
13 comentários:
Hoje apenas digo...
O sonho deve ser um bom presságio...
Como entendo todas as tuas outras palavras... e hoje sou eu que... i'm coping!!
Beijo NIPT.
Olha que este ganha em pontos à carta para a Joana...
Mas fiquei estranha depois de ler o teu texto. Sabes, tu passas muita paixão no que escreves mas esta entrada vem regada com tanta tristeza...
A indigência não é o caminho para ser feliz. É só um salto para a loucura mas até ai se sofre. É a condição humana, acho eu... Loucos mas felizes não é sempre verdade! Nem tem que ser verdade...
Há sempre outros caminhos =)
Inside Me, coragem. Os coping days não são novidade para mim, mas aqueles em que tens essa consciência em cima do acontecimento, são sempre muito difíceis. Solidariedade NIPT
Sol, a tristeza é como tudo na vida. Uma maré. Estou à espera que ela mude. Bjos aos dois
este post lembrou.me tanta coisa a nivel pessoal e cinefila... que nem sei qual é qual.
Sempre vi os amigos como um misto neste notting hill e do diario de bridget jones...
mas o que me veio à cabeça depois de ler isto foi mesmo este momento magico:
http://www.youtube.com/watch?v=AQajNLwJPyc
"Não me lembro de outra altura da vida em que tenha estado tão desapaixonada." Não só entendo como subscrevo inteiramente! Viver sempre também cansa...
Bjs
Shadow, na mouche. LOVE ACTUALLY é a minha comédia romântica favorita, número um, top dos tops. E a minha história favorita é a destes dois (três) Amo a parte em que ela descobre o vídeo do casamento. Adoro esta cena dos cartazes. Mas do que eu mais gosto, mais que tudo, é do beijo e de ele, com um sorriso enorme, a dizer "Enough. Enough now" E a seguir em frente.
Rosário, acho que é o Pedro Paixão que diz isso, "viver todos os dias cansa". Eu também acho
Beijinhos às duas
Infelizmente as palavras não são minhas, mas roubei-as para te as oferecer por achar que poderiam ser o eco da tua alma...
"Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero.
Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero.
Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre.
Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer.
Porque a minha força é imortal."
[José Luís Peixoto]
Obrigada, Teia. É poderoso, o excerto. QUEM ME DERA que fosse o eco da minha alma. Não me sinto com grande força interior.
Beijos
Teia d'aranha já disse tudo. Aquele excerto diz muito. Costumo le-lo e pensar sobre ele quando me sinto pior. EU quero, EU sou capaz. Adoro
bj***
exatamente..!!! mas sem deixar de parte a cena do casamento: LOVE! LOVE LOVE!!!!! ta na na, LOVE, LOVE LOVE!!!
"Todos conhecemos a noite e os dois lados que todas as noites têm: a noite dentro de casa e a noite fora de casa. Ou seja: há a tranquilidade e o esperado e há ainda o medo e a estranheza. Claro que se poderá sempre dizer que a poesia não se encontra nem numa lado nem noutro: a noite tem dois lados e a poesia é a porta de casa no momento em que é aberta e o escuro cobre a erva e o céu. Mas quando alguém tem medo deve correr para casa; e quando alguém sente tédio deve correr para a parte de fora da noite. E a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo; o que é bom e dois; sendo uma única, a poesia." Gostava de ter escrito isto, mas não fui...
Beijo
Pan
Escreves muito bem. Acabei de descobrir o teu blog, através do blog do Inside Me e já me perdi aqui nos teus posts. Acho que vou voltar.
Hoje de manhã acordei e disse convicta para mim própria. "É hoje. De hoje não passa."
Tenho andado a adiar (infelizmente, por falta de tempo, como aliás se vê nos meus post merdosos dos últimos dias) a leitura e respectivo do comentário dos teus posts. Mas hoje, domingo, dia de folga, em que tenho o sono todo em dia, de hoje não passa.
E depois cheguei aqui, vim procurar o último post que tinha lido e deparei-me com este "As Asas do Desejo" e pensei assim: "F***! O qu eé que eu digo agora?"
O meu jeito para as palavras é o que se conhece (fraquinho, fraquinho) por isso hoje vou cair no lugar comum de fazer minhas as palavras de todos os users que já comentaram este post. Porque aquilo que eles disseram é e será, sem dúvida, mais certeiro e mais "bem dito" do que qualquer coisa que eu aqui escreva.
Não queiras enlouquecer sim? :) Para louca já basto eu e aqui o JSJ faz falta a muito boa gente (grupo onde humildemente me incluo).
Beijo grande* :)
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