Costumo dizer que sou uma pessoa transparente. Nos afectos, não consigo fingir. Nem simpatia, nem antipatia, nem amor, nem desamor. Por isso toda a gente sabe com o que conta. As pessoas que não suporto não têm disso a menor dúvida. Os que amo, por mais que me magoem, enquanto amo, sabem que podem contar comigo sempre. E usam e abusam desse privilégio, até ao dia, que nunca sei quando é ou vejo chegar, em que digo basta, e passam duma lista para a outra, irremediável e irreversivelmente.
Sim, sou transparente nos afectos, há quem chame a isso não saber viver, a falha daquele tanto de hipocrisia mais um pouco de diplomacia, regado a uma pretensa dissimulação que o rosto não trai. O meu rosto é muito expressivo. Os meus olhos sorriem muitas vezes a quem não merece sorrisos há muito, e não consigo, por mais que tente, que não o façam. Opto, desde há algum tempo, por evitar olhar muita gente nos olhos, um gesto que em mim é natural. É a minha forma de tentar andar num patamar nem agressivo nem simpático, quando ambas as opções são inusitadas.
Muitas vezes, também, o sentimento de transparência é físico, venho para casa e tenho que me olhar ao espelho para me convencer que existo, e isso acontece quando passo o dia a mandar calar gaiatos que se comportam na sala de aula como se eu lá não estivesse, ou a tentar ser ouvida por colegas que não me dão a palavra, não ligam patavina ao que digo e depois repetem tudo o que eu disse, como de ideias originais se tratasse, e pelas bocas deles, toda a gente ouve. Nesses momentos, a transparência pesa e dói e uma pessoa sente-se muito pequenina.
No entanto... depois de um fim-de-semana em que morri para o Mundo porque valores mais altos se levantaram, em que estive praticamente sem telemóvel e de facto sem internet, em que estive prisioneira de outros castelos de altas torres, em que não estive um momento só e tudo pareceu passar em fast-forward, depois de um fim-de-semana num lugar em que faço sempre falta e sou sempre a mais importante, cheguei a minha casa, finalmente, para me ligar à realidade e descobrir que fui procurada. Tinha muitos mails, tinhas sms em quantidade surpreendente, tinha tentativas de comunicação.
Um dos mails, então, fez-me pensar. Um amigo relatava-me uma história em que determinada pessoa teria tecido comentários maldosos a meu respeito. E esse amigo pedia desculpa por me estar a contar coisas desagradáveis e pedia-me que não ficasse incomodada com isso.
E, de facto, não fiquei. Porque, no fundo, essas atitudes mazinhas e despeitadas, apresentam quem as toma, mas também dizem um pouco sobre mim. Eu sou, de facto, alguém importante e temível, alguém que representa uma ameaça seja de que espécie for, alguém que serve para inimigo, alguém que provoca raivas, ódios, invejas. Ninguém se dá ao trabalho de criticar pessoas como eu, que são incapazes de fazer mal a uma mosca, mesmo que a mosca meta um nojo horrível e seja chata todos os dias logo de manhã, ninguém se dá ao trabalho de dizer mal de pessoas inofensivas, como eu de facto sou, se essas pessoas forem indiferentes. Há algo em mim que desperta sentimentos profundos, bons e maus. E ambos me envaidecem. Porque fazem de mim uma presença forte, uma presença real, incómoda para alguns, so be it.
Sabendo eu que não prejudico ninguém e só gosto que ninguém me chateie, não consigo deixar de sorrir perante o carisma que me atribuem em especial os que não gostam de mim, e me dão a imensa importância de me enxovalhar pelas costas, sempre pelas costas, ou de deixar os tais comentários anónimos maldosos dia após dia, no blogue.
Não sei o que será, se será a gargalhada ruidosa, a tendência para a piada parva, o comentário escarninho sempre pronto, uma forma de viver a minha vida pouco convencional, a ironia com que olho o Mundo sem conseguir pôr panos quentes no quotidiano, a minha incapacidade assumida e óbvia de tolerar gente estúpida, a forma como viro costas ao que não me agrada. Acho que é isso tudo, aliado ao facto de ser uma das pessoas com o pior feitio do Universo, e, ainda assim, uma das que mais se ri.
O meu riso, não tenho dúvidas, é do que mais incomoda, constrange e chateia o resto do Mundo. E eu rio muito. Temos pena, desculpai lá qualquer coisinha, vós, seres trombudos e sérios, respeitáveis e responsáveis, competentes e superiores. A obsessão com a seriedade, a pompa, o formal, o grave, tudo isso me entristece nas pessoas. O achar que a carranca é sinónimo de inteligência e que quem se ri é idiota. Esta forma tuga-inha de ser. De dramatizar, de complicar, de empolar, de considerar que tudo o que é importante tem que ser feito com as maiores trombas do universo. Por isso, hei-de ser sempre olhada de lado nas reuniões de professores. E ainda bem, que adoro, adoro, esta minha maneira alegre (tola, idiota, estúpida, o que queiram) de ser.
Costumo dizer que sou transparente. Mas pelos vistos a minha transparência é o mundo de muita gente. E enquanto assim for, dou-me por feliz sendo tão importante.
5 comentários:
O teu riso nunca me incomoda... e como tenho saudades dele... e com certeza que ambas sempre nos poderemos olhar nos olhos...
Miss you!
Besitos...
Bem-Vinda, moça! Que saudades! :-(
Sim, de facto, fazes parte dos que dá para olhar nos olhos, dos que dá para dizer tudo... embora fosses uma daquelas que sempre se "portou bem" e dizia que eu "me portava muito mal" nas reuniões. E não podia olhar para mim em certas circunstâncias... Fazes cá tanta falta...
beijinhos
Excelente post! Subscrevo inteiramente. É que eu também sou muito "transparente", não consigo mentir, é uma chatice!...Afinal, como diz o Sérgio Godinho, "pode alguém ser quem não é?" Not me!! Mas conheço tanta gente que pode!Ah! Se conheço...
E eu também... conheço muita gente expert em aldrabice, maquinações, calculismo, hipocrisia... e depois andam sempre com uma cara amarradíssima. Porque será? Serão, no fundo, uns infelizes???
Beijinhos
Olha vou antes comentar o outro texto que é mais bonito... Até já Christ Superstar!
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