quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Transparência e Invisibilidade

“Em Portrait of an Invisible Man, o pai de Auster é definido pela própria indefinição dos adjectivos que servem para o caracterizar. É uma figura ausente, não só a nível familiar, mas na sua dimensão pessoal e íntima. A ausência, a invisibilidade, a fragmentação e a solidão são aspectos marcantes na personalidade da figura paterna do autor, figura essa que Freud considera a primeira referência de identificação do ego. Auster oscila assim, ao longo da sua introspecção, entre a opinião de que o pai fora alguém vazio de vida interior e o senso comum de que alguém assim não existe. Contudo, apresenta-nos alguém reduzido a uma dimensão estritamente social, opaco e impenetrável na sua essência, inábil nas relações interpessoais, assumindo várias personae que funcionam como marionetas que manipula de um lugar escuro. Ao longo do texto, Auster tenta explicar esta necessidade paterna de recorrer a máscaras pelo desespero interior de ele próprio, enquanto criança, ter perdido o seu pai em consequência de uma tragédia familiar que o lançaria para um desespero interior. Seria esta invisibilidade uma estratégia de defesa para minimizar a sua fricção com o mundo, e o traço mais pungente que assombra a família Auster durante várias gerações. A invisibilidade gera a solidão de alguém que recusa ser visto pelo outro e se esconde até não haver nada mais a esconder. Esta solidão reverte-se de dois aspectos distintos: ou o isolamento da consciência privada atira o sujeito para uma incapacidade de auto-contemplação e o anula ao olhar do outro ou, pelo contrário, o sujeito se perde de si próprio, abrindo assim caminho a encontrar-se, a auto-criar-se em vez de se auto-destruir.”
.....................................................................................
Esta é uma parte muito pequena da minha pretensa dissertação sobre Auster.
Vem a propósito dos meus textos sobre transparência.
O Homem Invisível (homem enquanto sujeito, claro está) não é um ser simplesmente transparente. É um sujeito destituído de vida interior, fruto de um trauma emocional complexo que culminou numa deliberada auto-anulação. O Homem Invisível não é mentiroso ou fraudulento, nem vive vidas paralelas ou ficcionais. O Homem Invisível não vive, simplesmente. Opera marionetas que nem suas são. Observa, sem opinião ou desejo, sem julgamento ou culpa, sem pretensão ou vaidade o infinito vazio que é ele mesmo. O Homem Invisível não sente nem cria laços, não reconhece as emoções que provoca nos outros, não treme, não receia, não arrisca, não ganha, não perde. Não vive.
O Homem Invisível não existe. O pai de Auster nunca existiu na sua dimensão paterna, nunca foi realmente amado, foi apenas alvo de uma profunda interrogação, da parte dos seus. Foi lamentado, desgostou, provocou emoções, mas jamais soube o que era senti-las. Tal explica-se, de forma redutora, pela ausência da própria figura paterna, estruturadora primária do seu respectivo ego. Porque não teve pai, nem ninguém que o substituísse em tempo útil, na primeira infância.
Eu, que tenho my issues no que diz respeito a figuras paternas, eu, que me comovo ao ponto de me virem as lágrimas aos olhos perante um pai que não só compra um livro a um filho pequeno, como ainda lhe escreve umas palavras de dedicatória na contra-capa, eu, cujo ego também não deve ter sido muito solidamente delineado a giz quando era pequena, eu… jamais serei o Homem Invisível. Porque sinto, porque quero, porque opino, porque sofro, porque exulto, porque filtro, porque sou, existo. Porque, quer me lamentem, quer me admirem, quer me amem, quer me odeiem, também eu sou sujeito de todas essas sensações em relação aos que me rodeiam. E ser sujeito, activo e interveniente, mata a invisibilidade.
Podemos ser fraudes, podemos viver mentiras, podemos lutar por verdades, podemos esconder-nos com medo, podemos enfrentar o elefante, mas somos. Existimos. Sentimos. Sentimos coisas contraditórias, temíveis, negadas até ao fim por nós próprios ou assumidas com todas as forças, mas sentimos.
Sinto, logo existo. E, por isso, posso ser transparente e sentir-me assim muito mais vezes que as que seria saudáveis. Mas jamais serei invisível. Como o pai de Auster, cuja derradeira invisibilidade foi ter vivido a sua vida de forma tão anti-natura que subverteu o amor mais simples de todos, o amor paternal. E não tendo sido capaz do paternal, jamais obteve o filial. E isso, apesar de tudo, pelas questões apresentadas, é caso raro. Não assenta em violência, em conflito, em questões geracionais. A invisibilidade assenta no vácuo absoluto. E, como tal, o senso comum diz-nos que nunca nada pode chegar a esse ponto. Nem filosoficamente. A invisibilidade é uma impossibilidade natural.

1 comentário:

Inside me disse...

"eu, cujo ego também não deve ter sido muito solidamente delineado a giz quando era pequena, eu… jamais serei o Homem Invisível."

Acredito sinceramente que jamais serás o Homem Invisivel,não tenho a minima duvida mas gostaria de ver sim "o retrato de um ego solidamente desenhado".

beijinhos
e Bons retratos