segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Listas de Deve-e-Haver

Hoje o dia correu bem. Se excluirmos o detalhe (importante) de estar um frio horroroso, e outro (ainda mais importante) de ser a última semana de aulas e andar já tudo em estado de sítio com as avaliações dos gaiatos, mais o programa alunos, mais os memorandos a secretários e DTs, mais os testes e trabalhos ainda por ver, mais as listas de conteúdos e a numeração das aulas dadas… pensando bem, o dia correu até muito aceitavelmente.
Arranjei tempo para ir ter com a S., a amiga que eu tenho mais parecida com família na Cidade de Deus. A família dela adoptou-me quando cá vim parar de pára-quedas, ainda mal saída da adolescência. Fomos colegas na Faculdade, fazíamos parte do mesmo grupo de amigas, éramos já muito próximas, mas nada que se compare à actualidade. Depois disso, já vivi em casa da avó dela. Já acompanhei todo o processo de nascimento e crescimento dos seus filhos, meus sobrinhos. Já estive presente em festas de aniversário e Ano Novo com a família toda. Patuscadas, churrascadas, férias, tudo, o embrulho completo. Foi ela que me disse, há uns anos, vais concorrer para Lisboa para quê? Compra cá casa que é aqui que está a tua família. A primogénita dela há-de ser sempre a MINHA afilhada, por muito que os padrinhos verdadeiros se insurjam contra a dura realidade. E ela hoje disse-me “Ontem à noite fui, pela primeira vez, ao teu blogue, mas não consegui deixar comentários, não percebo nada destas modernices e estive quase para te telefonar”. Ri-me, claro. É tão boa a informática como a Francês e Espanhol, e acreditem, vocês não a querem ouvir ler o Astérix em Francês em voz alta às tantas da manhã, nem estar presentes quando ela diz aos funcionários da recepção de um hotel em Palma de Maiorca “La chiave, por favior… obrigadia”.
Queria comentar o post do JadeMobile. Disse que tinha muitas aventuras para contar. Hoje dei conta que há um sem número de pessoas com histórias para contar à minha pala ao volante. Nenhuma delas me deixa ficar especialmente bonita na fotografia…enfim, com amigos destes, mais vale apostar nos inimigos!
E isto fez-me lembrar duas coisas. Primeiro, o Natal. Os leitores não esperem de mim textos, comentários ou outras referências que não esta, ao Natal. Não é, de facto, tema que me apaixone. De todo. Estar com a S. e ir ter com a minha mãe é o mais perto que consigo estar do espírito. É o mais perto que consigo chegar da noção de família. E tudo o resto, excluindo a família, nisso a que se chama Natal, para mim, é fantochada. Como dizia hoje a um amigo meu sobre política, não me façam falar daquilo que não percebo, desconheço ou não atinjo.
Depois, vem a questão da reciprocidade. A revolta da S. com as novas tecnologias por não me ter deixado um comentário a textos que lhe diziam directamente respeito, que há vários, aqui no blogue. A forma como roubou horas ao sono para ler o mais possível. O modo como disse, faz-te tão bem, escrever. Tudo isso mexeu comigo. Faço as coisas sempre sem pensar em retribuições. Presentes, então, adoro dar, fora de horas e de surpresa, por nada de especial que não seja gostar das pessoas. E farto-me de escrever textos bonitos a pessoas que, muitas vezes, nem sequer os lêem. Mas quando finalmente o fazem, gosto da atitude semelhante à da S. A reciprocidade. A cumplicidade. A retribuição. A preocupação em dizer, li, gostei, senti-me assim, acrescento isto, não acho aquilo nada assim, estou aqui, existo.
Há um tio (primo?) da Mzinha que teve um dia uma tirada brilhante: “Não, não vou ao funeral de fulano de tal, para quê? Já sei que ele também não vai ao meu…” Delicioso. Não é que se esteja à espera, que seja obrigatório, que se cobrem respostas, nada disso. Mas a verdade é que elas separam o trigo do joio. Volta sempre, S. Podes comentar pessoalmente, desde que não seja em Francês. Ou Espanhol.

10 comentários:

Dr.House disse...

Sabes que o Natal é uma época especialmente difícil para quem tem ausências significativas. Quer se queira, quer não, nesta época reparamos mais em quem nos falta, em quem deveria estar e não está. Por isso o Natal não será, nunca mais, uma época completamente feliz (se é que há épocas assim).
Mas apesar de tudo, temos que continuar a alimentar a magia do Natal (que a tem), porque para os que vieram depois de nós, e por nós, a alegria da espera dos presentes e da chegada do Pai Natal ainda vale o fingimento. É isso que torna o Natal, não só suportável, como desejável. Mas que é uma época em que as feridas se abrem mais um bocadinho, isso não tenho dúvidas.

Jade disse...

Deixa-me dizer-te, sob pena de ser gozada até ser velhinha, que te acho uma pessoa muito doce. Não sempre, nem na maior parte das vezes, mas na essência. Num determinado olhar que tens, e em certas coisas que dizes despreocupadamente, como se de nada importante se tratasse. Como esta.
Sabes, House, percebeste muitíssimo bem o que eu não disse nem nas entrelinhas. Mas como também sabes, eu não tenho a sorte de ter pessoas "que vieram depois", e que justificam toda a magia. Mas não há nada que me comova mais que os pais a acarinhar os filhotes. Beijos

Maria disse...

Dr House disse tudo.
Este ano vai custar um pouco também, aqui em casa.
Mas tenho a feliz sorte de ter uma família grande.
O mais pequenote tem 5 anitos, vem cá a casa. Ele vai, de certeza, fazer equilibrar a falta dos que já foram.

Beijinho a si Jade, e Dr House, por este pequeno momento.

Jade disse...

Quando há crianças, há Natal. Contra tudo e todos, contra perdas e danos, ausências e saudades. Há crianças, há Natal
Bj, Maria

silvia disse...

Descobri este blog através de um comentário noutro blog acho eu e devo dizer que gostei desde a primeira vez e agora passo por ca regularmente pra ler. Gostei deste post porque me identifico com ele. Perdi alguem querido á mais ou menos duas semanas e por isso se a minha família já não tinha o chamado espírito natalício este ano vai custar mais porque falta alguém, alguém querido, que nos faz falta. A verdade é que me sinto um bocado "perdda" mas ver que não sou a única neste situção de certa maneira "reconforta-me" não sei se será a palavra mais indicada, mas fiquei um bocadinho melhor depois de ler o texto. Porque não sou a única pra quem o Natal perdeu um pouco o significado.

Parabéns pelo blog.

bjito

Jade disse...

Bem-Vinda, Sílvia.
E eu que não queria MESMO falar sobre o Natal, e este post era suposto ser um agradecimento à minha amiga S., por ser tão importante para mim, e aos que retribuem as minhas atenções... e toda a gente pega no Natal...
O que é socialmente obrigatório ser uma época feliz, é o maior pesadelo da maior parte das pessoas, essa é que é essa...
Um grande beijinho solidário

Dr.House disse...

Quando era mais novo, tinha a mania que sabia dizer alguns poemas em público, nas festas do Liceu, nos grupos de teatro e nalgumas outras ocasiões.
Este foi sempre um dos meus preferidos, sobre o Natal e sobre tudo o que girá à sua volta. O seu autor é António Gedeão.

Dia de Natal

Hoje é dia de era bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.

De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

CarolinadoMónaco disse...

Que saudades das minhas meninas... Lá tenho de me enfiar no carro e ir até à Cidade de Deus...

O meu V mas pequeno pergunta todos os dias: Mãe hoje já é Natal?
E por ele, sim por ele, já temos Árvore de Natal, Presépio ( de Lego e bonecos) e vamos festejar o Natal, tal como temos feito desde que ele nasceu.
Beijinhos à S. e aos pequenos.

Rosário disse...

Tu não querias falar do Natal e nós o que fazemos?...Falamos todos do Natal...lol
Pessoalmente, também gosto pouco do Natal, é consumismo a mais para o meu gosto...Não suporto isso! Ah! E outra coisa que eu não suporto mesmo: as sms´s natalícias, reencaminhadas em série, todas a dizer as mesmas tretas!
Críticas à parte, e como tu muito bem dizes, havendo crianças há Natal e, como eu tenho dois sobrinhos muuuiiito queridos ,vou ter Natal:-)

Beijinhos

jose maria painha disse...

Cara Amiga
Contiunuas em grande!
O post do "Beijo de Klimt" é
sublime... uma prova de leveza na tua escrita viciante.
Continuo na minha, merecias ser publicada, há muito boa gente a escrever em jornais nacionais que não tem metade da tua qualidade, e ainda há quem diga que os professores são um grupo profissional mal qualificado. Enfim é a vida!

Parabéns atrasados pelo teu aniversário e um Santo Natal para ti e para os teus