Passei o serão de Sexta-Feira muitíssimo bem acompanhada, e a dedicar-me a uma das minhas actividades favoritas, se não a número um do top: deitar conversa fora. As conversas que tenho partilhado com os meus amigos são o melhor que guardo destes últimos tempos. Ou porque regadas a bom vinho tinto e acompanhadas de carne grelhada, ou porque enfeitadas de chávenas de café e chá a esvaziar lentamente, ou porque salteadas de papéis e écrans de portátil, geram sempre grandes sorrisos, sonoras gargalhadas ou lágrimas catárticas. São plenas de emoções e segredos, de piadas cáusticas e corte e costura, de muitos palavrões e muita poesia. Fala-se sobre música, cada vez mais. Sobre filmes, os nossos e os dos outros, os que se viram, os que se fizeram e os que nos incluíram como figurantes ou personagens mais ou menos secundárias. Matam-se e enterram-se em vida pessoas do passado e do presente, recuperam-se e ressuscitam-se outras, acarinham-se muitas, devastam-se inúmeras, dão-se opiniões válidas, advoga-se o diabo outras tantas vezes. Conversar é bom. Conversar é tudo. É mais que agir, a palavra tem poder.
Ontem desfiou-se então um rosário de palavras, com a minha opinião feminina em confronto pacífico com a dele, perturbadoramente masculina. Pensam de forma tão diferente, os dois sexos. E tão complementar que quase parece milagre.
Começou-se pela análise da semana, eu, Moura Guedes, ele, Pulido Valente, o tema, o mesmo, a escola, os colegas, as atitudes, o desânimo. Passou-se para a falta de tempo “temos falado pouco, pá, esta greve da Função Pública hoje calhou que nem ginjas” com os gaiatos a ir para casa por falta de condições logísticas e os professores a ficar, para cumprir horário, trabalhar um pouco no tempo livre inesperado e, claro, conversar bastante, reunidos durante um pouco mais de tempo que os intervalos instantâneos e prontos-a-servir, que boicotam qualquer espécie de interacção mais íntima que não seja discutir assuntos de trabalho prementes e trivialidades.
Depois a longa conversa evoluiu, como sempre entre nós, para assuntos do foro privado. Por mais que falemos das nossas vidas, conseguimos sempre surpreender-nos mutuamente com novas revelações ou detalhes, e filosofamos alegremente noite fora sobre os mais variados assuntos, comigo quase sempre a dizer, espera aí um instantinho que eu vou à bomba comprar tabaco e já venho. Ontem, a meio de uma conversa cujo tema já esqueci, ele sai-se com a frase “O que é isso de merecer? Não és tu aquela que tão bem fala dos acasos e neles acredita mais que em Deus? Ninguém merece nada. As coisas simplesmente acontecem”. E eu, eh lá… fui agarrada. De facto, nunca tinha visto a coisa por esse prisma. E disse, espera aí, que nunca tinha pensado nisso. Preciso de tempo para reflectir. E ele riu-se, e mudámos de assunto.
E aqui estou eu, a tentar perceber onde se encaixa o “Cada um tem o que merece” na rede de acasos que eu assumo como realidade da existência humana. E a resposta é simples, como simples são todas as epifanias que vamos coleccionando ao longo da vida. Tudo o que é verdadeiro é descomplicado. E a resposta é “Não encaixa”, e vai mais um lugar-comum borda fora.
Nada do que nos acontece neste caminho que trilhamos sós (uma frase de Picasso diz que nós somos a única pessoa que nos vai acompanhar a vida inteira, não é elucidativo da condição humana?) é merecido. Nada do que se nos depara é prémio ou castigo. Pouco nesta vida se resume à famosa dualidade de causa-efeito, qualquer consequência dos nossos actos é por demais imprevisível. Esforçamo-nos por trabalhar com toda a disciplina e o computador ganha um vírus que manda tudo para o cacete. Damos todo o amor do mundo a alguém que nos trai. Não fumamos e praticamos exercício físico e eis que surge um cancro no pulmão. Passamos a vida a ajudar os outros e quando precisamos de alguém está toda a gente ocupada. E digam-me, isto é para castigar quem, se fizemos tudo sempre certo? Depois há o reverso da medalha: não estudamos puto e temos uma nota brilhante. Fumamos e bebemos que nem desvairados e morremos aos noventa e muitos, pacificamente, durante o sono. Temos montes de amantes e nunca contraímos SIDA. Passamos a vida a tratar toda a gente abaixo de cão e encontramos o verdadeiro amor. E isto é um merecido prémio? Pois não.
Não há merecimento. Ou melhor, merecimento há, o que não existe é resposta clara, precisa e matemática para ele. Há coincidências. Há alturas em que parece que a+b=c. Que se fizermos assim, ganhamos assado. Mas a fórmula estraga-se assim que a aplicamos mais do que uma vez. O que resultou tão bem à primeira é o desastre total, nas mesmas circunstâncias, à segunda. É verdade. A vida tem pouco de lógica matemática. E isso, no fundo, até me conforta. Porque se bem que no meu caso as coisas tendam a dar para o torto, pelo menos esta convicção troca as voltas às pessoas calculistas. E eu fico contente por ver gente que, convencida que tem o “Toque de Midas”, de repente, se vê confrontada com o “Toque de Merdas”. Só para ter noção da sua própria falibilidade.
Rodam os dados. Há que esperar pelos resultados, aceitá-los e desdramatizar. Não levar a peito o aleatório, não perguntar “Porquê a mim? Mereço isto?” Alguém questiona o resultado do Póker? Não, pois não? Então insulte-se a sorte, “Que treta de resultado este”, e aposte-se noutro cavalo, da próxima vez. Ou no mesmo, porque nunca se sabe.
Ontem desfiou-se então um rosário de palavras, com a minha opinião feminina em confronto pacífico com a dele, perturbadoramente masculina. Pensam de forma tão diferente, os dois sexos. E tão complementar que quase parece milagre.
Começou-se pela análise da semana, eu, Moura Guedes, ele, Pulido Valente, o tema, o mesmo, a escola, os colegas, as atitudes, o desânimo. Passou-se para a falta de tempo “temos falado pouco, pá, esta greve da Função Pública hoje calhou que nem ginjas” com os gaiatos a ir para casa por falta de condições logísticas e os professores a ficar, para cumprir horário, trabalhar um pouco no tempo livre inesperado e, claro, conversar bastante, reunidos durante um pouco mais de tempo que os intervalos instantâneos e prontos-a-servir, que boicotam qualquer espécie de interacção mais íntima que não seja discutir assuntos de trabalho prementes e trivialidades.
Depois a longa conversa evoluiu, como sempre entre nós, para assuntos do foro privado. Por mais que falemos das nossas vidas, conseguimos sempre surpreender-nos mutuamente com novas revelações ou detalhes, e filosofamos alegremente noite fora sobre os mais variados assuntos, comigo quase sempre a dizer, espera aí um instantinho que eu vou à bomba comprar tabaco e já venho. Ontem, a meio de uma conversa cujo tema já esqueci, ele sai-se com a frase “O que é isso de merecer? Não és tu aquela que tão bem fala dos acasos e neles acredita mais que em Deus? Ninguém merece nada. As coisas simplesmente acontecem”. E eu, eh lá… fui agarrada. De facto, nunca tinha visto a coisa por esse prisma. E disse, espera aí, que nunca tinha pensado nisso. Preciso de tempo para reflectir. E ele riu-se, e mudámos de assunto.
E aqui estou eu, a tentar perceber onde se encaixa o “Cada um tem o que merece” na rede de acasos que eu assumo como realidade da existência humana. E a resposta é simples, como simples são todas as epifanias que vamos coleccionando ao longo da vida. Tudo o que é verdadeiro é descomplicado. E a resposta é “Não encaixa”, e vai mais um lugar-comum borda fora.
Nada do que nos acontece neste caminho que trilhamos sós (uma frase de Picasso diz que nós somos a única pessoa que nos vai acompanhar a vida inteira, não é elucidativo da condição humana?) é merecido. Nada do que se nos depara é prémio ou castigo. Pouco nesta vida se resume à famosa dualidade de causa-efeito, qualquer consequência dos nossos actos é por demais imprevisível. Esforçamo-nos por trabalhar com toda a disciplina e o computador ganha um vírus que manda tudo para o cacete. Damos todo o amor do mundo a alguém que nos trai. Não fumamos e praticamos exercício físico e eis que surge um cancro no pulmão. Passamos a vida a ajudar os outros e quando precisamos de alguém está toda a gente ocupada. E digam-me, isto é para castigar quem, se fizemos tudo sempre certo? Depois há o reverso da medalha: não estudamos puto e temos uma nota brilhante. Fumamos e bebemos que nem desvairados e morremos aos noventa e muitos, pacificamente, durante o sono. Temos montes de amantes e nunca contraímos SIDA. Passamos a vida a tratar toda a gente abaixo de cão e encontramos o verdadeiro amor. E isto é um merecido prémio? Pois não.
Não há merecimento. Ou melhor, merecimento há, o que não existe é resposta clara, precisa e matemática para ele. Há coincidências. Há alturas em que parece que a+b=c. Que se fizermos assim, ganhamos assado. Mas a fórmula estraga-se assim que a aplicamos mais do que uma vez. O que resultou tão bem à primeira é o desastre total, nas mesmas circunstâncias, à segunda. É verdade. A vida tem pouco de lógica matemática. E isso, no fundo, até me conforta. Porque se bem que no meu caso as coisas tendam a dar para o torto, pelo menos esta convicção troca as voltas às pessoas calculistas. E eu fico contente por ver gente que, convencida que tem o “Toque de Midas”, de repente, se vê confrontada com o “Toque de Merdas”. Só para ter noção da sua própria falibilidade.
Rodam os dados. Há que esperar pelos resultados, aceitá-los e desdramatizar. Não levar a peito o aleatório, não perguntar “Porquê a mim? Mereço isto?” Alguém questiona o resultado do Póker? Não, pois não? Então insulte-se a sorte, “Que treta de resultado este”, e aposte-se noutro cavalo, da próxima vez. Ou no mesmo, porque nunca se sabe.
... dir-te-ei quem és.
14 comentários:
Mas não é por essas coisas todas que o bom é a aventura do caminho?!
O resultado "da coisa" é só o FIM com um bonito laço e papel de embrulho...
Digo eu, que é o mesmo que o gozo da conversa. (Não interessa o que tiramos dali, amanhã há outras verdades, mas a "luta da ultima" soube bem)
Só para dizer que gosto muito do teu blogue.
Ah e já agora em relação ao post... estou a ler "Um novo mundo", de Eckhart Tolle e lá o autor diz que "a vida te dará aquilo que for necessário para a evolução da tua consciência"...
E eu acredito que sim, que as coisas não nos são dadas por merecimento, mas sim para que a nossa consciência evolua e nos leve para mais perto de quem devemos ser...
Podes crer Shadow podes crer. Começo a ver as tuas afinidades com a Isa... isso é que é optimismo para dar e vender. Assim continuem sempre que para gente miserabilista estou cá eu.
Cuidandodemim, welcome to my humble place. Esse Tolle o que diz, assim só por acaso, é que a minha consciência deve ser subdesenvolvida, com as tretas que a vida me arranja para que ela evolua...
Beijinhos
olá má frend...
Sabes, o meu amigo leitor de auras diz que cada um de nós vem à terra uma porçao de vezes. E, em cada uma dessas vezes tem de vivenciar um tipo de experiência e ser um determinado tipo de pessoa. Assim, umas vezes filhos da mãe, outras, mães dos filhos. Se assim é, eu desta vez vim para não ter trabalho, nem dinheiro, andar a pagar contas, andar a deitar água na fervura, aturar empregados das finanças que tiveram uma noite de mau sexo e se riem na minha cara quando digo que não sabia que devia ter fechado actividade... Mas também vim cá para me sentir feliz de manhã sem razão aparente e perceber as pessoas e o que lhes vai na alma mesmo antes delas próprias saberem. E para comer chocolate.
We miss you!
P.S.: Quando for a leitura de auras cá em casa estás convidada!
Ehehehe! E também vieste cá para fazer rir as amigas, e as consolar, e lhes dar de comer almoços fan-tás-ti-cos, e lhes falar de livros e de cremes hidratantes, e de as conduzir no carro do teu pai até ao Algarve enquanto lhes pregas sustos de morte... DASSSSSSSS! Ainda bem que vieste. E eu também, nem que seja só pelo chocolate, que já me valeu uns quilinhos a mais que me transformaram numa gaija boua...
Minha querida, adoro, adoro, adoro os teus textos.
É engraçado, penso da mesma maneira mas não consigo transportar isso para palavras desta forma, tão perfeita.
Tou a ler e a pensar "eu também sou assim." :)
Thank you.
Beijinho*
Eu é que agradeço. Fico contente por colher empatias de pessoas tão novinhas... e que escrevem tão bem como tu, verdade seja dita.
Beijinhos
Brilhozinho Jade,
Não acho que o que temos na vida seja fruto de merecimentos. Mas acho que devemos tentar percorrer sempre o caminho dos justos e dos bons. Devemos tentar sempre não prejudicar ninguém porque isso não pode trazer-nos nada de bom. Aliás, pelo contrário. Eu sigo essa filosofia e todas as noites, quando me deito, estou tão descansada que a leveza me leva a dormir melhor.
Beijos brilhantes para ti
Nota: Comentei a Joana
Olá
Vejo que é uma moça de Portugal.
É curioso. Fui ao Google e simplesmente mandei buscar algo que contivesse Jade - Portugal.
Saiu o seu blog e fui ver o que continha. Gostei.
Interessante sob todos os aspectos.
Um dia talvez eu faça um blog como o seu onde relatarei algumas coisas interessantes. Um relato completo te faria compreender porque fiz essa busca simples no Google, com as palavras Jade e Portugal.
Envolve alguem que se identifica como Jade, envolve uma criança, envolve Portugal (talvez Açores).
Tudo parece tao "fake".
Bem, esse que escreve está no Brasil.
José
Pois é, às vezes a vida real é tão extraordinária que parece mentira, José. "Fake". O que aqui se escreve nem sempre é verdade, mas é sempre genuíno. As teorias são sinceras, os exemplos muitas vezes ficcionais. Quando a vida imita a arte, escolha-se a arte para descrever a vida. Volte sempre.
Brilhosinhos, o teu blogue está nos meus favoritos, desde sempre. Adoro a escrita e os temas. Obrigada por teres vindo ao meu cantinho.
Um beijo grande
"Diz-me o que mereces..."
Ora, mereço uns dias (para não dizer a vida toda), numa ilha, cheia de areia, sol,palmeiras, hotel 5*, mar transparente (mas que na foto fique bem azul e verde e fash lol) ... e de preferencia deserta (de gente conhecida e que fale portugues lol).
Mas isso sou eu.
Ora, se mereces isso, dir-te-ei quem és: és uma pessoa hiper-mega-ri-fixe. Ou então és professora!
LOL, não achas que faço uma concorrência brutal às mediuns que por aí andam?
Shadow, deixa-me acrescentar, em resposta ao que li agora mesmo... LOL!!! Ele há coincidências do camandro, minha querida. Beijos
A verdadeira consciência tem sempre um peso diferente e mais massa.
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