sábado, 22 de novembro de 2008

Diz-me o que mereces...

Passei o serão de Sexta-Feira muitíssimo bem acompanhada, e a dedicar-me a uma das minhas actividades favoritas, se não a número um do top: deitar conversa fora. As conversas que tenho partilhado com os meus amigos são o melhor que guardo destes últimos tempos. Ou porque regadas a bom vinho tinto e acompanhadas de carne grelhada, ou porque enfeitadas de chávenas de café e chá a esvaziar lentamente, ou porque salteadas de papéis e écrans de portátil, geram sempre grandes sorrisos, sonoras gargalhadas ou lágrimas catárticas. São plenas de emoções e segredos, de piadas cáusticas e corte e costura, de muitos palavrões e muita poesia. Fala-se sobre música, cada vez mais. Sobre filmes, os nossos e os dos outros, os que se viram, os que se fizeram e os que nos incluíram como figurantes ou personagens mais ou menos secundárias. Matam-se e enterram-se em vida pessoas do passado e do presente, recuperam-se e ressuscitam-se outras, acarinham-se muitas, devastam-se inúmeras, dão-se opiniões válidas, advoga-se o diabo outras tantas vezes. Conversar é bom. Conversar é tudo. É mais que agir, a palavra tem poder.
Ontem desfiou-se então um rosário de palavras, com a minha opinião feminina em confronto pacífico com a dele, perturbadoramente masculina. Pensam de forma tão diferente, os dois sexos. E tão complementar que quase parece milagre.
Começou-se pela análise da semana, eu, Moura Guedes, ele, Pulido Valente, o tema, o mesmo, a escola, os colegas, as atitudes, o desânimo. Passou-se para a falta de tempo “temos falado pouco, pá, esta greve da Função Pública hoje calhou que nem ginjas” com os gaiatos a ir para casa por falta de condições logísticas e os professores a ficar, para cumprir horário, trabalhar um pouco no tempo livre inesperado e, claro, conversar bastante, reunidos durante um pouco mais de tempo que os intervalos instantâneos e prontos-a-servir, que boicotam qualquer espécie de interacção mais íntima que não seja discutir assuntos de trabalho prementes e trivialidades.
Depois a longa conversa evoluiu, como sempre entre nós, para assuntos do foro privado. Por mais que falemos das nossas vidas, conseguimos sempre surpreender-nos mutuamente com novas revelações ou detalhes, e filosofamos alegremente noite fora sobre os mais variados assuntos, comigo quase sempre a dizer, espera aí um instantinho que eu vou à bomba comprar tabaco e já venho. Ontem, a meio de uma conversa cujo tema já esqueci, ele sai-se com a frase “O que é isso de merecer? Não és tu aquela que tão bem fala dos acasos e neles acredita mais que em Deus? Ninguém merece nada. As coisas simplesmente acontecem”. E eu, eh lá… fui agarrada. De facto, nunca tinha visto a coisa por esse prisma. E disse, espera aí, que nunca tinha pensado nisso. Preciso de tempo para reflectir. E ele riu-se, e mudámos de assunto.
E aqui estou eu, a tentar perceber onde se encaixa o “Cada um tem o que merece” na rede de acasos que eu assumo como realidade da existência humana. E a resposta é simples, como simples são todas as epifanias que vamos coleccionando ao longo da vida. Tudo o que é verdadeiro é descomplicado. E a resposta é “Não encaixa”, e vai mais um lugar-comum borda fora.
Nada do que nos acontece neste caminho que trilhamos sós (uma frase de Picasso diz que nós somos a única pessoa que nos vai acompanhar a vida inteira, não é elucidativo da condição humana?) é merecido. Nada do que se nos depara é prémio ou castigo. Pouco nesta vida se resume à famosa dualidade de causa-efeito, qualquer consequência dos nossos actos é por demais imprevisível. Esforçamo-nos por trabalhar com toda a disciplina e o computador ganha um vírus que manda tudo para o cacete. Damos todo o amor do mundo a alguém que nos trai. Não fumamos e praticamos exercício físico e eis que surge um cancro no pulmão. Passamos a vida a ajudar os outros e quando precisamos de alguém está toda a gente ocupada. E digam-me, isto é para castigar quem, se fizemos tudo sempre certo? Depois há o reverso da medalha: não estudamos puto e temos uma nota brilhante. Fumamos e bebemos que nem desvairados e morremos aos noventa e muitos, pacificamente, durante o sono. Temos montes de amantes e nunca contraímos SIDA. Passamos a vida a tratar toda a gente abaixo de cão e encontramos o verdadeiro amor. E isto é um merecido prémio? Pois não.
Não há merecimento. Ou melhor, merecimento há, o que não existe é resposta clara, precisa e matemática para ele. Há coincidências. Há alturas em que parece que a+b=c. Que se fizermos assim, ganhamos assado. Mas a fórmula estraga-se assim que a aplicamos mais do que uma vez. O que resultou tão bem à primeira é o desastre total, nas mesmas circunstâncias, à segunda. É verdade. A vida tem pouco de lógica matemática. E isso, no fundo, até me conforta. Porque se bem que no meu caso as coisas tendam a dar para o torto, pelo menos esta convicção troca as voltas às pessoas calculistas. E eu fico contente por ver gente que, convencida que tem o “Toque de Midas”, de repente, se vê confrontada com o “Toque de Merdas”. Só para ter noção da sua própria falibilidade.
Rodam os dados. Há que esperar pelos resultados, aceitá-los e desdramatizar. Não levar a peito o aleatório, não perguntar “Porquê a mim? Mereço isto?” Alguém questiona o resultado do Póker? Não, pois não? Então insulte-se a sorte, “Que treta de resultado este”, e aposte-se noutro cavalo, da próxima vez. Ou no mesmo, porque nunca se sabe.
... dir-te-ei quem és.

14 comentários:

Shadow disse...

Mas não é por essas coisas todas que o bom é a aventura do caminho?!

O resultado "da coisa" é só o FIM com um bonito laço e papel de embrulho...

Digo eu, que é o mesmo que o gozo da conversa. (Não interessa o que tiramos dali, amanhã há outras verdades, mas a "luta da ultima" soube bem)

cuidandodemim disse...

Só para dizer que gosto muito do teu blogue.
Ah e já agora em relação ao post... estou a ler "Um novo mundo", de Eckhart Tolle e lá o autor diz que "a vida te dará aquilo que for necessário para a evolução da tua consciência"...
E eu acredito que sim, que as coisas não nos são dadas por merecimento, mas sim para que a nossa consciência evolua e nos leve para mais perto de quem devemos ser...

Jade disse...

Podes crer Shadow podes crer. Começo a ver as tuas afinidades com a Isa... isso é que é optimismo para dar e vender. Assim continuem sempre que para gente miserabilista estou cá eu.
Cuidandodemim, welcome to my humble place. Esse Tolle o que diz, assim só por acaso, é que a minha consciência deve ser subdesenvolvida, com as tretas que a vida me arranja para que ela evolua...
Beijinhos

CarolinadoMónaco disse...

olá má frend...
Sabes, o meu amigo leitor de auras diz que cada um de nós vem à terra uma porçao de vezes. E, em cada uma dessas vezes tem de vivenciar um tipo de experiência e ser um determinado tipo de pessoa. Assim, umas vezes filhos da mãe, outras, mães dos filhos. Se assim é, eu desta vez vim para não ter trabalho, nem dinheiro, andar a pagar contas, andar a deitar água na fervura, aturar empregados das finanças que tiveram uma noite de mau sexo e se riem na minha cara quando digo que não sabia que devia ter fechado actividade... Mas também vim cá para me sentir feliz de manhã sem razão aparente e perceber as pessoas e o que lhes vai na alma mesmo antes delas próprias saberem. E para comer chocolate.
We miss you!

P.S.: Quando for a leitura de auras cá em casa estás convidada!

Jade disse...

Ehehehe! E também vieste cá para fazer rir as amigas, e as consolar, e lhes dar de comer almoços fan-tás-ti-cos, e lhes falar de livros e de cremes hidratantes, e de as conduzir no carro do teu pai até ao Algarve enquanto lhes pregas sustos de morte... DASSSSSSSS! Ainda bem que vieste. E eu também, nem que seja só pelo chocolate, que já me valeu uns quilinhos a mais que me transformaram numa gaija boua...

Alexandra disse...

Minha querida, adoro, adoro, adoro os teus textos.
É engraçado, penso da mesma maneira mas não consigo transportar isso para palavras desta forma, tão perfeita.
Tou a ler e a pensar "eu também sou assim." :)
Thank you.
Beijinho*

Jade disse...

Eu é que agradeço. Fico contente por colher empatias de pessoas tão novinhas... e que escrevem tão bem como tu, verdade seja dita.
Beijinhos

brilhosinhos disse...

Brilhozinho Jade,

Não acho que o que temos na vida seja fruto de merecimentos. Mas acho que devemos tentar percorrer sempre o caminho dos justos e dos bons. Devemos tentar sempre não prejudicar ninguém porque isso não pode trazer-nos nada de bom. Aliás, pelo contrário. Eu sigo essa filosofia e todas as noites, quando me deito, estou tão descansada que a leveza me leva a dormir melhor.

Beijos brilhantes para ti

Nota: Comentei a Joana

Anónimo disse...

Olá
Vejo que é uma moça de Portugal.
É curioso. Fui ao Google e simplesmente mandei buscar algo que contivesse Jade - Portugal.
Saiu o seu blog e fui ver o que continha. Gostei.
Interessante sob todos os aspectos.
Um dia talvez eu faça um blog como o seu onde relatarei algumas coisas interessantes. Um relato completo te faria compreender porque fiz essa busca simples no Google, com as palavras Jade e Portugal.
Envolve alguem que se identifica como Jade, envolve uma criança, envolve Portugal (talvez Açores).
Tudo parece tao "fake".
Bem, esse que escreve está no Brasil.
José

Jade disse...

Pois é, às vezes a vida real é tão extraordinária que parece mentira, José. "Fake". O que aqui se escreve nem sempre é verdade, mas é sempre genuíno. As teorias são sinceras, os exemplos muitas vezes ficcionais. Quando a vida imita a arte, escolha-se a arte para descrever a vida. Volte sempre.
Brilhosinhos, o teu blogue está nos meus favoritos, desde sempre. Adoro a escrita e os temas. Obrigada por teres vindo ao meu cantinho.
Um beijo grande

Shadow disse...

"Diz-me o que mereces..."

Ora, mereço uns dias (para não dizer a vida toda), numa ilha, cheia de areia, sol,palmeiras, hotel 5*, mar transparente (mas que na foto fique bem azul e verde e fash lol) ... e de preferencia deserta (de gente conhecida e que fale portugues lol).

Mas isso sou eu.

Jade disse...

Ora, se mereces isso, dir-te-ei quem és: és uma pessoa hiper-mega-ri-fixe. Ou então és professora!
LOL, não achas que faço uma concorrência brutal às mediuns que por aí andam?

Jade disse...

Shadow, deixa-me acrescentar, em resposta ao que li agora mesmo... LOL!!! Ele há coincidências do camandro, minha querida. Beijos

Mirovich disse...

A verdadeira consciência tem sempre um peso diferente e mais massa.